25 de fevereiro de 2009

José Luís Peixoto (1)

Trouxe do 'vento' (clicar) o post sobre o JLP e os comentários, para não o(s) perdermos de vista.

O que vos proponho é irem comentando, a partir de agora, nos posts
(q vou ainda pôr) sobre cada livro que tenham lido, e assim se preparava a visita do escritor.. seria assim o vosso, o meu, contributo ..

Podiam, alunos do 10.º B,
era convidar os vossos colegas da turma A a participarem também nesta espécie de 'tertúlia' .. - que tal?

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o post de partida:

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E agora, como prometido (.!.) José Luís Peixoto, escritor português, galardoado com o prémio José Saramago em 2001*
Conheço-o há pouco tempo. Até agora li 2 livros seus, o 'Nenhum Olhar' * e 'O Cemitério de Pianos'. Já comprei o 'Cal'..
  • dele sei .. que tem a idade do "25 de Abril", muitos piercings, tatuagens qb.
  • que tem um blogue (a q. vai m.to pouco mas onde deixa uns textos deliciosos..), um site (coming soon).. ; que está no My Space.
  • que de si diz : Tenho um punk dentro de mim, debaixo da minha pele ...(não percam o texto:!! - 'Not dead ' - 4º post, aqui)
  • que às vezes não usa maiúsculas e 'reflexivou' o verbo parar: ele, ela, parou-se, nem mais..
  • que parece ser uma pessoa encantadora, e tímido, tímido (apesar de punk ..:)
  • que a tristeza infinita daquele olhar nas contra-capas se tem vindo a esbater..
  • que tem um humor surpreendente, delicioso: e um texto ** q o ilustra: a ler, absolutamente (aqui ao fundo)

Sei que há-de vir à ESAG (Março?) e que não vos perdoo se não me convidarem a assistir ( alô 10.º B!! .. :-)))


Sei também que José Luís Peixoto é fã (penso q incondicional) do escritor argentino Julio Cortázar, (clicar para ver post) de quem, de resto, prefaciou a edição portuguesa de "Rayuela/o jogo do mundo". Que fielmente, amorosamente, lhe adoptou/adaptou as transgressões estruturais no romance 'O Cemitério de Pianos'.

  • sei, sobretudo, que escreve .. como que com o corpo todo.
  • que cada palavra inserta é tão absolutamente a palavra certa, que dir-se-ia ter sido sonhada antes.
  • que os seus personagens são de uma humanidade enternecedora.
  • sei que a sua prosa é tão.. mas tão .. intensamente poética
  • e que a sua escrita é bela e flui , que é insinuante e dolorosa , que sem apelo toma conta de nós como um 'mal de vivre' que. (Isto é uma das coisas q ele faz, acabar as frases deste modo impossível e no entanto tão rico de hipóteses, de leituras ..)
Deixo-vos
  • com um texto seu, que vos dará a conhecê-lo certamente muito melhor do que eu alguma vez o faria : um escritor visita a língua portuguesa
  • uma fotografia surpreendente, por aqui (+/- a meio da página, têm de procurá-la ;))
  • e já agora .. nesta importada celebração q dá pelo nome de Valentine's Day, com um seu -lindíssimo- poema de amor:
"...a tua ausência é, em cada momento, a tua ausência.
não esqueço que os teus lábios existem longe de mim.
aqui há casas vazias. há cidades desertas. há lugares.

mas eu lembro que o tempo é outra coisa, e tenho
tanta pena de perder um instante dos teus cabelos.

aqui não há palavras. há a tua ausência. há o medo sem os
teus lábios, sem os teus cabelos.
fecho os olhos para te ver
e para não chorar..."

e ainda.. o tal texto, referido em cima **

José Luís Peixoto na sua saborosíssima crónica – Verdades quase verdadeiras, no JL
(Jornal de Letras),
acerca das pessoas que dormem nas conferências dos encontros literários:
(...)
«No entanto, numa ou outra circunstância, quando estou nessa mesa de microfones e os vejo dormir, sinto uma ternura por eles que só pode ser comparada ao amor.
É uma ternura imensa e absoluta. Não sei ainda se esse sentimento existe por identificação, porque gostaria de estar no lugar deles, a dormir sem rugas na pele, ou se existe por inequívoca impossibilidade.
Sei sim que é um sentimento de família, como se, implicitamente, essas pessoas fossem meus irmãos, irmãs, pais, filhos. É como uma necessidade de cuidar deles, de pousar-lhes uma manta sobre as pernas, uma almofada sob o pescoço perdido.
É como uma vontade de falar baixo para que não despertem, para que tenham a sua tranquilidade assegurada por mais um instante, nem que seja por mais um instante…
De um modo geral, aqueles que dormem são uma minoria da assistência. Em situações excepcionais, já identifiquei dois, três, ou mesmo quatro, numa só sala. Mas continuo a participar em encontros literários e continuo a ter esperança. Aguardo com paciência pelo dia em que toda a sala adormeça.
Três ou quatro autores e teóricos, sentados a uma mesa com garrafas de água e um arranjo floral, a falarem muito baixinho para não acordar a assistência, que dorme mais ou menos profundamente: uma sinfonia de respirações, paz.
O aplauso mais puro a ser o contrário de palmas. Mundos e sonhos possíveis a desenrolarem-se por de trás dos rostos. Seria comovente e maravilhoso.» JLP


postado por ana lima


e agora, os comentários
(praticamente todos) de alunos do 10.º B:


anónimo
disse...
Não o conheço suficientemente para dizer que é um bom escritor. Mas no momento em que recebe o prémio Saramago, sobe muito na consideração das pessoas
14 de Fevereiro de 2009 9:27

al
disse...
verdad, verdad, .. mas é um óptimo escritor, na minha opinião..
os alunos q aqui vierem, please, deixem nome e turma, sim? pode ser no 'corpo' da mensagem..:D
14 de Fevereiro de 2009 9:31

Ruben
disse...
Já li o livro "Uma casa na escuridão": de certa forma gostei do livro, só não gostei da parte das invsões mutilados e de como ele descreve muito a morte.
14 de Fevereiro de 2009 13:37

André Gonçalves
disse...
Das 37 páginas do "Nenhum Olhar" que li até agora, a minha mente infantil gosta de citar umas linhas da pág. 27. Mas isto sou eu...
É meu amigo (no MySpace, claro) e achei o texto do punk muito interessante (já o tinha lido antes da professora o indicar, fui aos seus links e descobri o blog dele). Ainda não sei que perguntas lhe farei quando ele lá for à escola, mas há-de ocorrer qualquer coisinha...
Ah, e não é o 10ºD que a tem de convidar, mas sim o B, porque o JLP só vai visitar as turmas da professora Otília (A e B). ;)
14 de Fevereiro de 2009 13:48

al
disse...
claro, enganei-me... 10.º B, as minhas desculpas!!!!!!!!!!!!!!!!!!e eu sei de uma pergunta q ele gostaria q lhe fizessem, mas ñ digo!! quero estar lá!!!!!!!:-))))))
14 de Fevereiro de 2009 13:58

al
disse...
Ruben: ñ percebi o que queres dizer com 'invsões mutilados' ?!ñ queres explicar melhor?
André: então e as citações da página 27? Não queres pô-las aqui? - please? :-))bjis aos 2
14 de Fevereiro de 2009 17:22

disse...
pelo que li até agora do livro « Nenhum Olhar » devo dizer que nunca li nada assim . a maneira do autor escrever , os detalhes que ele dá , os sentimentos que expressa .. A minha sorte é o livro ser muito interessante, porque com coisas secantes eu adormeço rapidinho. Beijinhos, Stora ;D - Joana Correia 10ºB
15 de Fevereiro de 2009 0:30

André Gonçalves
disse...
Por acaso não, senhora professora. São ordinarices... x)
15 de Fevereiro de 2009 0:31

al
disse...
ordinarices, menino aluno?!;D - não acredito! O JLP ñ escreve ordinarices.. vou reler a tal pg 27
15 de Fevereiro de 2009 0:37


Ruben
disse...
Se querem saber sobre as invasões, o melhor é mesmo ler
15 de Fevereiro de 2009 9:43

al
disse...
Ruben, toda a razão, mas bem q podias deixar aqui um 'cheirinho', não? só para abrir o apetite, vá lá..e calculo, então, q os mutilados de q falas acima sejam o 'colateral damage' das invasões..pensando bem, as invasões só podem ser as francesas .. será? e isso traz-me à memória o último livro do Pérez-Reverte, "um dia de cólera" - conheces? o livro? o autor?bjis.. e volta sp! (e vê se convences o teu colega Rafael a vir aqui tb!!:-D
15 de Fevereiro de 2009 10:47

Ana Parada
disse...
Olá olá, eu li o "morreste-me" e as poucas páginas que contem esse livro estão todas cheias de sofrimento devido à morte do seu pai. sinceramente, eu acho os seus métodos de escrita um pouco estranhos, pois no meu livro diz que o seu pai morreu de uma doença prolongada, enquando no livro do Ruben, "uma casa na escuridão", fala que o pai matou a escrava com uma chave de fendas e de seguida matou-se a si próprio.
Agora, uma boa questão a colocar: será que José Luis Peixoto escreve o que vive ou inventa aquilo que quer escrever? acho a segunda hipótese mais apropriada, mas se ele inventa é porque de certa forma gosta de coisas ligadas à morte - ou então viu filmes de terror a mais :P
15 de Fevereiro de 2009 15:37

al
disse...
Oi Ana, obrigada por teres 'aparecido' por aqui! está visto q os domingos, com mais ou menos sol, são mesmo dias de 'pacholice', de ficar em casa..;)Qto aos livros do JLP: não li nenhum dos q referes, mas calculo que o 'morreste-me' seja mais ou menos auto-biográfico. Aquela dor, aquela insuportável tristeza, sente-se ainda no 'nenhum olhar', q, se ñ me engano, foi escrito no mesmo ano.Em 'uma casa na escuridão', e repito, ñ li, o "pai" será o do narrador, q ñ é necessariamente o autor .. penso q seja isso.«será que José Luis Peixoto escreve o que vive ou inventa aquilo que quer escrever? », perguntas. Pois .. muitos escritores darão vida a essa dualidade.. e haverá livros que se baseiam mais em vivências, outros que serão pura invenção.. nos dois casos,de qq forma, sempre criação literária, ñ é? Tb me parece que o desaparecimento de um ente querido tem necessariamente de deixar marcas profundas, e q a questão da morte passe a estar mais presente, pelo menos durante uns tempos ..agora.. na minha opinião, o JLP é um escritor intrinsecamente melancólico, e acho q é tb isso q torna a sua escrita tão bela, ainda que dolorosa..Às tantas tiveste azar no livro que escolheste .. por que ñ experimentas o 'cemitério de pianos', q é menos triste?bjis e .. obrigada, Ana. o teu comentário deu-me o gosto de me pôr a divagar..
15 de Fevereiro de 2009 15:58

Aldo
disse...
Eu li o "Morreste-me", é um bom livro, de que até gostei. Esse livro mostra toda a dor e o sofrimento do autor pela morte do pai. E acho que o efeito da escrita que é a "repetição" faz todo o sentido ^^Aldo^^
15 de Fevereiro de 2009 22:14

Ruben
disse...
Não vou dar nem um cheirinho, porque assim terão mais curiosidade de o ler :P - Vá, vou só dizer uma coisa: o meu livro retrata uma paixão diferente das outras, em que o autor comunica com ela através da escrita, e a certa altura não conseguem comunicar mais (é aí que entram as invasões e os mutilados), e mais não digo :P. E concordo com tudo o que a Ana disse, queria só corrigir uma coisa: o pai matou a escrava e a si próprio com um machado.
16 de Fevereiro de 2009 17:52

Joana Costa
disse...
Li o livro de poesia "GAVETA DE PAPEIS" e pelo que percebi, o autor adora utilizar a personificaçao. A personificaçao dá vida aos seus poemas e por vezes, mais vontade de continuar a ler, mas também os torna mais difícies de interpretar. Esse foi o único ponto negativo, mas mesmo assim continuo a aconselhar a leitura deste livro, pois é um dos livros com os poemas mais bonitos que alguma vez li. e se se ler cuidadosamente e calmamente, por vezes somos capazes de encontrar toda a beleza daqueles poemas. Eu já li e não me arrependi.
Beijinhos da Joana Costa, nº13, 10ºB
16 de Fevereiro de 2009 17:57

Joana Costa
disse...
P.S. Professora Ana...Isto também se aplica a si, se não ler vou ficar muito desiludida consigo!!! Vá lá, nao custa nada... é pequeno e muito interessante! Força nessa leitura!! JOANA COSTA Nº13 10ºB
16 de Fevereiro de 2009 17:59

al
disse...
Oi lindos:que bom, o JLP parece ter-vos entusiasmado! só é pena q sejam sempre os mesmos a comentar.. q tal envolverem a vossa prof de português nesta 'tertúlia', hein? e o resto dos preguiçosos dos vossos colegas tb, claro! :-))E.. à propos: acho q, com esta partilha, já mereço q me convidem para a 'private session',como diz o André!! ^^
E então, Ruben, afinal, a "só uma coisa" q disseste já foi um cheirinho!!! :-) e agora ...pois.. vou-me pôr a divagar outra vez: então o livro 'uma casa na escuridão' há-de ser todo muito metafórico ... as invasões já ñ serão as francesas, mas qq coisa a nível do sonho, do subconsciente, e os mutilados, claro, os q sofrem por amor.. a escrava é o sujeito/ objecto daquela paixão 'diferente' através da escrita - platónica?, e quando os 2 não conseguem comunicar mais, a única saída para: o desespero de ambos/o sofrimento dela (?) ... é a morte, o machado - objecto definitivo - libertando-os ..que tal, Ruben, acertei nalguma coisa? E, pois, já sei q ñ vais deixar "nem um cheirinho" !:D - o melhor é emprestares-me o livro: eu empresto-te o 'cemiério de pianos', queres?bjis
16 de Fevereiro de 2009 18:21

al
disse...
agora para a Joana:"força nas leituras" é coisa q ñ me custa mesmo nada fazer, embora prefira romances a livros de poesia.. um pouco + difícil é comprar os livros, por isso vais ter de mo emprestar.. tenho o 'nenhum olhar' para a troca, vale? :De para todos os alunos q aqui têm vindo falar do JLP, quero q saibam q estou a a-d-o-r-a-r !!bjis, até 4ª
16 de Fevereiro de 2009 18:27

al
disse...
.. por acaso alguém .. (além do André..) leu alguma coisa do q eu escrevi neste post?e..?- concordam c/ as apreciações?- leram o texto sb as pessoas q dormem nas sessões literárias?- o poema? - gostaram???;D- descobriram a tal fotografia? e..?e .. já pensaram no q lhe vão perguntar qdo ele for lá à escola??bjis
16 de Fevereiro de 2009 21:04

Adélia
disse...
Pelas 315 páginas que já li do 'Cemitério de Pianos', acho que valeu a pena o tempo que demorei, pois o JLP é 'tão fofinho' na maneira como escreve. Fundamento isto com o facto de usar uma personagem real como base da sua história e conseguir criar um enredo a partir daí. Achei isso bastante interessante: a história começar a tornar-se real, mesmo sabendo que era ficção. Bjs***
17 de Fevereiro de 2009 15:02

Ruben
disse...
Não acertou em nada. o melhor é ler o livro, se não daqui a nada já está a fazer concorrência ao JLP xD
17 de Fevereiro de 2009 15:45

al
disse...
1º para a Adélia:'fofinho', o JLP será, com certeza.. agora .. isso de 'criar' um personagem e dar-lhe vida é o q é suposto os escritores fazerem, n'est-ce pas?:-) claro que ele fá-lo muito bem, com muita coerência, e aí acho q tens toda a razão, quase q nos tornamos íntimos deles, ñ é?
agora o Ruben: tu não me digas!!!ñ acertei em nada?? NADA de NADA???nada - mesmo???!!!!amanhã levas o livro, emprestas-mo? qual queres para a troca? - Nenhum olhar: muito triste, muito bonito- Cemitério de Pianos: menos triste, igualmente bonito, de mais difícil leitura
17 de Fevereiro de 2009 17:49

Paula
. disse...
Olá stora :) O livro que estou a ler é o "Cemitério de Pianos " . Até agora está a ser interessante e estou a gostar da obra, pois o autor tem uma maneira de escrever muito própria, nunca tinha lido nenhuma obra com essas características. É um livro grande mas fácil de ler. Tchau, Bjinhos. :D
17 de Fevereiro de 2009 21:18

al
disse...
Que bom estares a gostar, Paula! Eu tb gostei muito, dos personagens, da escrita poética, da ternura subjacente.. Fiquei foi um tanto baralhada com aqueles 'capítulos' interrompidos, que continuam 3 ou 4 folhas depois. Às tantas já ñ sabia quem era quem. Afinal quantos narradores tem este romance? 2? 3? Senti necessidade de fazer uma árvore genealógica para me 'situar'... senti necessidade, mas ñ fiz :-)) e, apesar das baralhações, fui lendo, lendo, sem conseguir parar, até ao fim .. assim são os escritores 'maiores', que nos agarram 'malgré tout'.. Certo, certo, é que gosto IMENSO desta troca de ideias convosco!bjis
17 de Fevereiro de 2009 21:48


Edu1992
disse...
Bom dia, já comecei a ler o meu livro, que é "o cemitério de Pianos" e até acho o livro interessante até a pagina 100. A partir daí, o autor começa a misturar muitas histórias, o que dificulta a leitura. Mas o livro em geral é interessante
24 de Fevereiro de 2009 9:12

al
disse...
É verdade, tb achei. no 'cemitério..' ele adopta uma 'arrumação' inspirada n1 livro de q falo no post, viste? eu recomendaria ir pondo umas notas de rodapé (coisa q eu ñ fiz, mas de que dp senti falta), do tipo: continua na pág. tal ... ;-)) Apesar de tudo, acho q o livro se lê até ao fim com prazer, mesmo q nos escape alguma lógica. Fico contente por estares a gostar.. o Anexi é q, pelos vistos ...:-D

13 de fevereiro de 2009

José Luís Peixoto

Sei que virá cá à escola. E que os alunos do 10.º ano andam a ler os seus livros, preparando-lhe a visita.. Assim, e nesta importada celebração que dá pelo nome de Valentine's Day, aqui fica um poema de amor de José Luís Peixoto:


o tempo, subitamente solto pelas ruas e pelos dias, como a onda de uma tempestade a arrastar o mundo, mostra-me o quanto te amei antes de te conhecer.

eram os teus olhos, labirintos de água, terra, fogo, ar, que eu amava quando imaginava que amava.

era a tua voz que dizia as palavras da vida.

era o teu rosto.

era a tua pele.

antes de te conhecer, existias nas árvores e nos montes e nas nuvens que olhava ao fim da tarde.

muito longe de mim, dentro de mim, eras tu a claridade.


mais sobre este escritor, aqui


postado por ana lima

9 de fevereiro de 2009

trova do vento que passa-versão Amália

Foi um dos ícones de uma época: Fado, Futebol e Fátima. E, junto com Eusébio, a face mais visível do Portugal que então ousava mostrar-se ao mundo. Com uma presença sedutora e uma voz inimitável, Amália Rodrigues representava, cantava, encantava. Do seu reportório de fados constam poetas populares e outros eruditos, como Camões, David Mourão-Ferreira, Manuel Alegre .. Deste último é o poema abaixo: Trova do Vento que Passa

Pergunto ao vento que passa
Notícias do meu país
O vento cala a desgraça
O vento nada me diz.

Pergunto aos rios que levam
Tanto sonho à flor das águas
Os rios não me sossegam
Levam sonhos deixam mágoas.2x

Levam sonhos deixam mágoas
Ai rios do meu país
Minha pátria à flor das águas
Para onde vais, ninguém diz.

Se verde trevo desfolhas
Pede notícias e diz
Ao trevo de quatro folhas
Que morro por meu país. 3x

letra de Manuel Alegre ; música de Alain Oulman (som na imagem)

Mas porque, a par dos cantores e fadistas que entretinham (ainda que magistralmente) havia, mais ou menos na mesma época, os outros, os que intervinham (chamados cantores de intervenção), este mesmo poema, do mesmo Manuel Alegre, tem, cantado, duas versões distintas. Numa, a que aqui consta, incluíram-se apenas as primeiras 4 quadras, onde se 'choram' mágoas difusas, inexplícitas, mais ou menos inócuas: poderiam ser coitas de amor, saudade porque sim. A outra versão dispensa a 'modorra' das estrofes do meio. Aponta razões, culpas, caminhos. Vai descendo num libelo acusatório, cada vez mais fundo, cada vez mais clamor, cada vez mais, outra coisa.
Vejam as diferenças, se quiserem: aqui

al

3 de fevereiro de 2009

Alfred Gockel

'prints', de Alfred Gockel , um pintor abstracto que me gusta ..

uma galeria com a sua obra, e um minuto e meio de imagens:

al

surpresa 2

adivinhem quem apareceu por aqui .. again ..
têm de ir aos comentários ..

ao lado, 'moved by the music', de alfred gockel


al

1 de fevereiro de 2009

no me llames extranjero

«O apocalipse dos trabalhadores (comentário 4 posts abaixo), é uma manifestação do meu espírito igualitário, esta vontade enorme que tenho de que possamos ser felizes sobretudo por não nos espezinharmos uns aos outros. O combate à xenofobia foi o primeiro tópico do livro. Quis escrever sobre o quanto considero nojento que recebamos mal quem para cá vem, quando é da natureza do português ir para fora trabalhar (...)»

Partindo destas declarações do escritor Valter Hugo Mãe
, aqui vos deixamos um vídeo comovente, com a música e a voz poderosa do cantautor e poeta argentino Rafael Amor (no nome, site oficial; biografia em espanhol aqui) :

no me llames extranjero

tradução do poema, aqui

e a conhecidíssima canção clandestino, de Manu Chao

al

31 de janeiro de 2009

Prémio Europa-David Mourão-Ferreira 2008

Jacinto Lucas Pires foi distinguido coom o Prémio Europa-David Mourão-Ferreira 2008 pela sua obra Assobiar em Público. O livro é uma recolha de 22 contos, alguns dos quais inéditos, de Jacinto Lucas Pires.
Jacinto Lucas Pires nasceu no Porto em 1974. Vive em Lisboa. Em dez anos publicou quatro livros de teatro, cinco livros de ficção e um de viagens.
O Prémio Europa - David Mourão-Ferreira é instituído pelo Centro de Estudos Lusófonos–Cátedra David Mourão-Ferreira da Universidade de Bari e do Instituto Camões. Este prémio tem o objectivo de difundir a língua portuguesa e as culturas dos países lusófonos homenageando o poeta David Mourão-Ferreira e favorecendo a divulgação das obras dos autores premiados através de um plano coordenado de traduções nos países da União Europeia e do Mediterrâneo.
O prémio conta com o patrocínio do Instituto Camões, da Universidade de Bari, da Câmara de Bari, da Região Apúlia, do Banco Unicredit e de outras Entidades italianas e estrangeiras. Este ano, presidiu ao júri Eduardo Lourenço.
fonte aqui

a nova geração de escritores portugueses: aqui

postado po al

John Martyn

Fiquei a saber da sua morte pelo blogue do vhm, casadeosso. Não conhecia, achei bonito, intimista:

John Martyn, 'May you never'

aqui, noutra versão: o mesmo cantor??!! agradecem-se esclarecimentos..

al

29 de janeiro de 2009

as paixões, os livros: o apocalipse dos trabalhadores

acabei de ler o apocalipse dos trabalhadores, de valter hugo mãe (pois.. tudo em letra pequena, que ele não gosta de maiúsculas!:-)). tempo, então, de me sentir órfã, como sempre acontece depois que uma obra maior me agita e desassossega, me preenche, me adopta.
  • não sei se é a fluidez da escrita, o registo oral parecendo fácil assim transposto, a natural integração dos diálogos, numa técnica que me soa ‘saramaguiana’.
  • o carácter agridoce dos seus personagens, tão vulgares, simultaneamente, tão sublimes.
  • a criatividade, a imaginação deliciosamente delirante.
  • ou se é a transgressão formal, a pontuação reduzida ao mínimo, praticamente só vírgulas e pontos.
  • será antes, talvez, a capacidade invulgar de elevar um quotidiano cinzento a uma claridade de nuvens. de transportá-lo ainda além, até às portas do céu: uma praça pejada de vendedores ambulantes (uma rebaldaria), onde a maria da graça espera grita insulta desespera, e o são pedro, casmurro: vai-te embora, mulher, não entendes que não vale a pena morrer de amor.
  • será, também, o desfazer da lógica que, simples, se torna evidência incontornável. ou o humor posto assim, naturalmente, na ‘pessoa’ de um cão chamado portugal: cala-te, palerma, onde é que já se viu um país a ladrar.
  • ou então, o amor a-final da quitéria tornada indefesa pelo toque desse homem que se desiste máquina, desse jovem ucraniano (sete milhões de mortos de fome nas décadas de 20 e 30 do século vinte, sabiam? ..), desse andriy filho de ekaterina farol-casa-parede-mestra, cansada ekaterina, ekaterina desmaterializando-se, andriy filho de sasha-louco: imagina-me sorrindo, filho.
  • os personagens expondo-se, inteiros, e nós entrando-lhes dentro. e eles insinuando-se, entranhando-se. e corrompendo-nos, como o maldito-amado-senhor-ferreira à mulher-a-dias maria da graça: ensinando-lhe goya, os artistas que são capazes até de surpreender o criador. e o requiem de mozart, o volume posto no máximo, anunciando-lhe a despedida, emoldurando-lhe a final celebração.

só a paixão pode, num momento de afinidade com a vontade de deus, resultar numa obra tão impossível, e isto é fernando pessoa. ou, como diz o próprio vhm, "uma escrita por dentro da pele". é esse, certamente, o segredo, o fascínio deste romance. isso, e o amor imenso que dessa escrita se desprende. a cada folha lida, partilhada, volatilizando-se. contaminando-nos. porque o amor não cabe quieto no espaço tão pequeno que é o corpo de uma mulher. no de um livro também não.

obrigada, valter hugo. e que venha um romance novo, depressa, urgentemente.


todas as frases em itálico são transcrições de 'o apocalipse dos trabalhadores'

uma entrevista ao autor, aqui

al

2 poemas de Sophia

DATA

Tempo de solidão e de incerteza
Tempo de medo e tempo de traição
Tempo de injustiça e de vileza
Tempo de negação
Tempo de covardia e tempo de ira
Tempo de mascarada e de mentira
Tempo de escravidão
Tempo dos coniventes sem cadastro
Tempo de silêncio e de mordaça
Tempo onde o sangue não tem rasto
Tempo da ameaça




Sophia e escritores seus contemporâneos, aqui


PORQUE

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.



no desenho: link para uma entrevista
al

28 de janeiro de 2009

A rapariga que roubava livros, de Markus Zusak

Quando a morte nos conta uma história temos todo o interesse em escutá-la. Assumindo o papel de narrador em A Rapariga Que Roubava Livros, vamos ao seu encontro na Alemanha, por ocasião da segunda guerra mundial, onde ela tem uma função muito activa na recolha de almas vítimas do conflito. E é por esta altura que se cruza pela segunda vez com Liesel, uma menina de nove anos de idade, entregue para adopção, que já tinha passado pelos olhos da morte no funeral do seu pequeno irmão. Foi aí que Liesel roubou o seu primeiro livro, o primeiro de muitos pelos quais se apaixonará e que a ajudarão a superar as dificuldades da vida, dando um sentido à sua existência. Quando o roubou, ainda não sabia ler, será com a ajuda do seu pai, um perfeito intérprete de acordeão que passará a saber percorrer o caminho das letras, exorcizando fantasmas do passado. Ao longo dos anos, Liesel continuará a dedicar-se à prática de roubar livros e a encontrar-se com a morte, que irá sempre utilizar um registo pouco sentimental embora humano e poético, atraindo a atenção de quem a lê para cada frase, cada sentido, cada palavra. Um livro soberbo que prima pela originalidade e que nos devolve um outro olhar sobre os dias da guerra no coração da Alemanha e acima de tudo pelo amor à literatura.
fonte: aqui

O romance é do jovem escritor australiano
Markus Zusak e eu tb o li: achei-o .. uma delícia: divertido às vezes, dorido quase sempre, e de uma ternura .. como só as crianças. Ou a morte: esta, a narradora..

al

27 de janeiro de 2009

aprender com os melhores

Espantoso como eles já sabiam isto, no século XVI! (e vão 5..) E atenção, que não se trata de uns quaisquer teorizadores menores, longe disso! Eles são, nada menos, que os (alegadamente? reconhecidamente?) maiores educadores de todos os tempos: os Jesuítas!!!

Ora então vejam, e aprendam..


RATIO STUDIORUM (*)
da Companhia de Jesus (1599)- excertos

“Nada deve ser mais importante nem mais desejável (…) do que preservar a boa disposição dos professores (…). É nisso que reside o maior segredo do bom funcionamento das escolas (…).” “Com amargura de espírito, os professores não poderão prestar um bom serviço, nem responder convenientemente às [suas] obrigações.”
“Quando um professor desempenha o seu ministério com zelo e diligência, não seja esse o pretexto para o sobrecarregar ainda mais e o manter por mais tempo naquele encargo. De outro modo os professores começarão a desempenhar os seus deveres com mais indiferença e negligência, para que não lhes suceda o mesmo.”

Incentivar e valorizar a sua produção literária: porque “a honra eleva as artes.”

“Em meses alternados, pelo menos, o reitor deverá chamar os professores (…) e perguntar-lhes-á, com benevolência, se lhes falta alguma coisa, se algo os impede de avançar nos estudos e outras coisas do género. Isto se aplique não só com todos os professores em geral, nas reuniões habituais, mas também com cada um em particular, a fim de que o reitor possa dar-lhes mais livremente sinais da sua benevolência, e eles próprios possam confessar as suas necessidades, com maior liberdade e confiança. Todas estas coisas concorrem grandemente para o amor e a união dos mestres com o seu superior. Além disso, o superior tem assim possibilidade de fazer com maior proveito algum reparo aos professores, se disso houver necessidade.”

"I. 22. Para as letras, preparem-se professores de excelência
Para conservar (…) um bom nível de conhecimento de letras e de humanidades, e para assegurar como que uma escola de mestres, o provincial deverá garantir a existência de pelo menos dois ou três indivíduos que se distingam notoriamente em matéria de letras e de eloquência. Para que assim seja, alguns dos que revelarem maior aptidão ou inclinação para estes estudos serão designados pelo provincial para se dedicarem imediatamente àquelas matérias – desde que já possuam, nas restantes disciplinas, uma formação que se considere adequada. Com o seu trabalho e dedicação, poder-se-á manter e perpetuar como que uma espécie de viveiro para uma estirpe de bons professores.

II. 20. Manter o entusiasmo dos professores
O reitor terá o cuidado de estimular o entusiasmo dos professores com diligência e com religiosa afeição. Evite que eles sejam demasiado sobrecarregados pelos trabalhos domésticos."


(*) ratio studiorum (do latim: plano de estudos: uma espécie de manual de pedagogia)

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26 de janeiro de 2009

jazz: M.ª João e Mário Laginha

do álbum 'Chocolate' (2008): letra: Alan Jay Lerner / música: Frederick Loewe ; voz: Maria João; piano: Mário Laginha
Ive Grown Accustomed to His Face

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na Y- blogosfera: Queque com Passas

São 2 + 4. Dos 4, 1 mudou-se da António Gedeão para a Emídio. 3 são meus alunos este ano e têm .. uma 'latosa' que só visto. Ora leiam: «Ora bem, depois de pedincharmos, a nossa professora de Inglês veio ao nosso blog e comentou-o (só a pedinchar é que as pessoas comentam, ai, ai...). »
Pois .. pedincharam mais uma coisita, e eu até fiz (horror!!..) chantagem, qq coisa do tipo: ou vão ao ESAGBIB deixar um comentário, ou não têm publicidade grátis! :-)) - o facto é q resultou, e por isso aqui estão hoje, com todo o destaque: ladies and gentlemen, Y and O, os ....... queque com passas!!! - basicamente dois amigos com muita criatividade, muito humor, muita vontade de fazerem coisas. Os outros 4, calculo que sejam 'contratados' à tarefa .. :-)) ?

Então o blogue, que até agora era «podcast/blog» e pelos vistos (ainda não decidiram..) vai deixar de o ser, porque o André e o Tiago já quase esgotaram o espaço disponível com a rubrica "a tua musiquinha não é melhor que a minha" : eles fazem teatro; filmam o teatro; colocam o vídeo no youtube e publicam-no no seu probably-about-not-to-be-a-podcast. Mais:
  • eles representam de pijama.
  • eles não têm falsos pudores, nem de linguagem.
  • eles odeiam os Megadeth ..
  • eles postam uns comentários, às vezes: aqui .. e ali, na coluna à direita..
  • eles divertem-se que nem macacos em dia de comer bananas (ñ se ofendam, foi só .. uma tentativa de 'entrar' na vossa onda .. :-))
  • eles, parece-me, têm muito pouco tempo para estudar. Vá lá professores, entendam, são dois artistas portugueses!
  • eles são .. o .. QUEQUE COM PASSAS!
o link, aqui - e divirtam-se!

quadro: 'meine Freunde' (os meus amigos), de Marika Raake

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eclipse com anel

Uns quantos sortudos que estejam hoje lá para os lados do Oceano Índico poderão apreciar um acontecimento raro, quando um eclipse solar anelar transformar o sol num disco negro com uma luminosa coroa à volta, em forma de anel.

Nos eclipses solares, a lua posiciona-se entre o sol e a terra, projectando a sua sombra na superfície terrestre. Um ligeiríssimo desacerto no alinhamento dos 3 astros leva a que a lua não cubra completamente a face visível do sol, como acontece nos eclipses totais, assim dando origem ao deslumbrante eclipse anelar.

fonte: aqui
explicações mais científicas e outras imagens de eclipses: aqui

e, por sugestão de uma visitante imprescindível.., um vídeo


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24 de janeiro de 2009

a música como arma: Adriano Correia de Oliveira

clicar na foto para ouvir A.C.O.

  • porque atrás dos tempos vêm tempos..
  • porque, de novo, este é o tempo em que os homens renunciam ..
  • e porque só estas canções me parecem, agora, fazer sentido ..

    - um site que as reúne quase todas: AQUI
  • ao meio, onde diz "canções de intervenção", ir seleccionando.. É só clicar para ouvir .. eu gosto muito da n.º 19: CANÇÃO COM LÁGRIMAS, música e voz de Adriano Correia de Oliveira, letra de Manuel Alegre: dedicada a um amigo que morreu na guerra colonial

no vídeo:trova do vento que passa: "há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz: NÃO! "

quando morreu o Adriano, dele disse Zeca Afonso: "Desapareceu o último cantor de intervenção."

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23 de janeiro de 2009

quando os lobos uivam

  • Quando os Lobos Uivam: romance (censurado) de Aquilino Ribeiro
  • série (baseada no romance homónimo de Aquilino Ribeiro) sobre a saga dos beirões em defesa dos terrenos baldios durante a ditadura, adaptada por Francisco Moita Flores
  • justiça da noite
    : na ilha Terceira: a mesma luta contra a abusiva apropriação de terrenos baldios que, segundo o direito consuetudinário insular, pertenciam aos povos das freguesias, como logradouros comuns
  • Edição comemorativa
    do 50.º aniversário da 1.ª edição de 'quando os lobos uivam': prefácio inédito de Álvaro Cunhal; 20 ilustrações de João Abel Manta
  • espécie em risco de extinção: o
    lobo ibérico [página do Grupo ecologista Lobo] : canis lupus signatus [página dedicada a um dos animais mais belos, inteligentes e misteriosos ..]

o quadro: Aquilino Ribeiro, por Artur Bual

no vídeo: a beleza (a tristeza) dos lobos, da música andina:

oiçam-nos, vejam se não vos apetece também .. .. ..


sejamos o lobo do lobo do homem .. (caetano veloso, 'língua')

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e vão 3: CANSAÇO

na A. R. , hoje, pela 3.ª vez !! ... mais explicações para quê?

Parece-me é haver qualquer coisa de muito incongruente, nisso a que chamam 'disciplina de voto' : votar não é escolher? não é optar? decidir de livre vontade?

E não é o 'disciplinar' da consciência, do querer, um atentado à própria liberdade? Uma censura - e descarada ? Quem encontrar nisto algum sinal de que estamos em democracia que me explique, sff..


O largo número de deputados, a própria existência de uma Assembleia, não era suposto garantir a pluralidade de ideias e opiniões?
Existindo a disciplina de voto (e apenas para as questões cruciais!), bem poderia haver um único deputado por partido, tendo os seus votos peso proporcional ao da votação do respectivo partido nas legislativas. Eram só vantagens:
  • podiam reunir na casa de um deles- ou decidiam por mail, ou por SMS:
  • libertavam o espaço para outra coisa: um museu, um local de acolhimento para os sem-abrigo, qualquer coisa útil.
  • poupavam-nos, a todos, ilusões e muito, muito dinheiro!

sem mais.. :
- em cima, o quadro, 'Cadavre Exquis', de Cruzeiro Seixas
- o poema, em baixo, de um heterónimo de FP, Álvaro de Campos


Cansaço

O que há em mim é sobretudo cansaço —
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser…

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto…
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimno, íssimo, íssimo,
Cansaço…

Álvaro de Campos

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22 de janeiro de 2009

outras músicas: Léo Ferré

« o louco inspirado, o poeta profético, aquele que sempre, e cada vez mais, pertencerá ao futuro, atravessou os céus da Europa no século passado como um cometa incendiário ... »
Era anarquista e chamava-se Léo Ferré . (cliquem no nome, vão dar a um site incrível!).

- e não percam, no vídeo, uma interpretação espantosa, misto de teatro e música, assim como um panfleto - cúmplice, libertário, provocatório:

LA SOLITUDE



a letra, aqui / um cheirinho: «o desespero é uma forma superior de crítica»

e ainda .. vejam q vale a pena: uma página na ESAG dedicada a mais umas quantas figuras maiores da cultura francesa : aqui

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indie rock: Arcade Fire

Pois é.. já há muuuuito tempo que não vos dávamos música, verdad? Então aqui vai .. um vídeo de uma banda canadiana de indie rock (clicar se ñ souberem o q é..) que já foi visto por mais de um milhão de pessoas. A acompanhá-los, um músico britânico que não precisa de apresentações:

The Arcade Fire & David Bowie, live:

WAKE UP



aqui, as letras dos Arcade Fire

e mais : um óptimo vídeo promocional: Rebellion (Lies): aqui

já disse antes, não é? no Cemitério de Pianos, o J. L. Peixoto tb usa 2 pontos várias vezes na mesma frase!:-))

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21 de janeiro de 2009

escritores na escola: Ana Mª Magalhães

Esteve hoje na Biblioteca da Esag a escritora Ana Maria Magalhães, co-autora, com Isabel Alçada, de várias colecções de livros infanto-juvenis que vêm, de há anos, entretendo e ensinando gerações de jovens leitores. Uma das mais conhecidas é a série "Uma Aventura", cujo sítio pode ser consultado aqui.

Foi, no entanto, no âmbito da colecção "Quero ser", que a escritora aqui foi hoje homenageada por um grupo de alunos da turma de teatro do 7.º ano.
Ei-los, na imagem à direita, entrando em cena com a sua professora e encenadora, Ana Gouveia. Os jovens alunos representaram uma cena do livro "Quero ser actor" e.. tiveram sucesso e muitas palmas, pois claro!


Depois da representação, foi a vez de Ana Maria Magalhães responder às várias questões de uma plateia interessada, que, nas palavras de despedida da escritora, mereceu elogios rasgados pela lição de cidadania, pela imagem do 'lado positivo da escola' que soube transmitir. Todos muito jovens, compenetrados, atentos. Todos alunos de várias turmas do 7.º ano, que nas aulas de Língua Portuguesa prepararam, com empenho e entusiasmo, a vinda da sua escritora, a nível de intervenções, pesquisa de dados, preparação de guiões de entrevista, logística de recepção, etc, etc

A autora correspondeu às expectativas e ao empenho de alunos e professores: a todos soube prender com relatos das 'suas' aventuras, com bom-humor e uns insuspeitados dotes representativos: "Acham que a vida de actor de televisão é interessante? -Hmm, nem sempre..." - e foi um gosto vê-la representar uma cena: uma vez, duas vezes, 'n' vezes, e.. "Corta! Entrou luz na imagem, vamos repetir. ".. e .. "Corta! Passou uma mota!" Risos, e o prazer de ouvi-la falar, de ouvi-la contar..

E contou, por exemplo, da sua experiência inesquecível no Brasil - com gibóias e casas nas árvores e banhos de rio, os medos vencidos, todos, até o das piranhas!


E foi interessante saber do carácter autobiográfico daquele naufrágio-quase; e ouvir contar das lágrimas que caíram, a espaços, sobre as folhas que escreviam, as duas autoras, quando outro remédio não houve que o de matar o personagem a que tanto se tinham afeiçoado..

Ocasião rara, essa, que o mais das vezes divertem-se as duas muito, Ana M.ª Magalhães e Isabel Alçada, com as histórias que escrevem, num trabalho de parceria e criação a que tencionam dar continuidade, esperamos nós que com o mesmo prazer de sempre, e por muitos anos.

No fim, as flores, os agradecimentos, os livros autografados.

Obrigada à escritora, pela sua vinda. Obrigada aos alunos: os que a entrevistaram, os que representaram, os que tão bem a souberam ouvir. Obrigada, também, aos professores que propiciaram este acontecimento, a todos quantos partilharam este tempo.

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20 de janeiro de 2009

Barack Obama: tomada de posse

Enfrentando temperaturas gélidas, uma multidão exuberante de mais de um milhão de pessoas reuniu-se em Washington para festejar a tomada de posse de Obama. Encheram o National Mall, do Capitólio ao Lincoln Memorial. Aí, precisamente, onde, 46 anos antes (em 1963), outro grande afro-americano, Martin Luther King Jr., tinha inflamado também milhões, com o seu inspirador discurso "I Have a Dream". (clicar para ouvir, 'live')

Num país que tem presentemente 11 milhões de desempregados, que perdeu triliões de dólares em desastrosas operações da bolsa, Obama enfatizou, no seu discurso, o facto de o seu maior desafio consistir em reabilitar a devastada economia dos Estados Unidos: «O tempo de ficarmos indiferentes, de protegermos os interesses de uns quantos, e de protelarmos decisões difíceis - esse tempo, acabou!», disse Obama, no que foi uma clara 'alfinetada' ao seu antecessor e às políticas da administração Bush.
«A partir de hoje, vamos erguer-nos, sacudir o pó, começar a tarefa de reconstruir a América. E, àqueles que se agarram ao poder através da corrupção e da mentira, ou pelo silenciamento dos seus opositores, dizemos que estão do lado errado da história (...) »
Barack Obama, de 47 anos, é o 1.º presidente afro-americano eleito nos EU, assim quebrando uma barreira que gerações e gerações de etnias minoritárias tinham considerado intransponível:
«É este o momento de lembrar que todos somos iguais, todos somos livres e todos merecemos uma oportunidade para conquistarmos o nosso quinhão inteiro de felicidade.»

fonte: Yahoo

- seguir hiperligação deste post (no título) ou clicar aqui para ouvir o final do discurso de tomada de posse - eu .. fiquei arrepiada ..

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19 de janeiro de 2009

surpresa

o escritor valter hugo mãe visitou hoje este blogue, deixou um comentário.
foi .. mais uma coisa boa (muito boa), num dia de luta e de luto. *
obrigada!

pelo muito que o aprecio, escrevi à maneira dele, sem maiúsculas :-))
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*uma notícia triste: morreu o músico João Aguardela

clar-evidências: Bertolt Brecht

Mandou-me isto uma amiga, na sequência do post anterior. Achei .. muito apropriado:

De que serve a bondade
1
De que serve a bondade
Quando os bondosos são logo abatidos, ou são abatidos
Aqueles para quem foram bondosos?
De que serve a liberdade
Quando os livres têm que viver entre os não – livres?
De que serve a razão
Quando só a sem-razão arranja a comida de que cada um precisa?
2
Em vez de serdes só bondosos, esforçai-vos
Por criar uma situação que torne possível a bondade, e melhor;
A faça supérflua!
Em vez de serdes só livres, esforçai-vos
Por criar uma situação que a todos liberte
E também o amor da liberdade
Faça supérfluo!
Em vez de serdes só razoáveis, esforçai-vos
Por criar uma situação que faça da sem-razão dos indivíduos
Um mau negócio!
Bertolt Brecht, in 'Lendas, Parábolas, Crónicas, Sátiras e outros Poemas' ; Tradução de Paulo Quintela

Fiz depois uma pesquisa rápida e fui parar ao sítio As Tormentas [cliquem e façam o favor de ler: tudo, absoluta, inquestionavelmente, tudo!]. Eu, fiquei deslumbrada (ultimamente acontece-me muito, por que será?!:-)) desta vez com a actualidade, a clarividência dos poemas todos que o Luís Rodrigues lá pôs do Bertolt Brecht, genial dramaturgo alemão de que avidamente li (em alemão!!) acho que tudo, em tempos de faculdade.. Que é imperdoável não conhecerem.

E não resisti, transcrevo o que abaixo lerão, e que me traz à memória 'uma frase ultimamente muito batida' : "é a lei, que se há-de fazer? ......"
«Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo. E examinai, sobretudo, o que parece habitual. Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural, nada deve parecer impossível de mudar - Bertolt Brecht

a esta citação resisti ainda menos.. ora vejam:
«O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguer, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo.»
- poema "O Analfabeto Político" ,
B. Brecht


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os escritores, a (des)informação, a educação

Vem isto no seguimento de uma entrevista que a escritora Alice Vieira deu ao jornal Público, a propósito do 'estado da educação' (mais ou menos isso..) : aqui, se quiserem ler

Confesso que fiquei um tanto irritada com o artigo – melhor dizendo, com algumas das opiniões da Alice Vieira. Conheço os seus livros – obviamente – porque o meu filho, a minha sobrinha, os liam. De uns gostavam, de outros nem tanto. É assim .. como em tudo, como em relação aos professores.
O que não compreendo, o que não poderei nunca aceitar, é que, também esta escritora, fale tão assertivamente do que não sabe. E o mais lamentável é que não é a única (escritora, entenda-se) a arrogar-se esse opinar desinformado.
Passo a explicar, pegando-lhe numa frase que enferma de várias incorrecções: «… quando 140 mil professores vêm para a rua, é óbvio que devem ter razão, mas não têm toda. A ideia que tenho, desde o princípio é de que a ministra tem razão em querer que os professores sejam avaliados, mas ela não sabe transmitir o que quer. »

  1. 140 mil é o número total (aproximado) de professores. Os que vieram para a rua terão sido entre 120 e 130 mil .
  2. Se é assim tão óbvio que "devem ter razão", talvez seja igualmente óbvio que a tenham toda. Deveria Alice Vieira, pelo menos, pôr-se essa hipótese ..
  3. Alice Vieira tem uma ideia formada: a de que "a ministra tem razão em querer que os professores sejam avaliados". Pois é … as percepções não bastam. Deveria, antes de opinar, saber esta escritora que, antes desta ministra, os professores JÁ ERAM AVALIADOS! Foram-no, durante anos, através de um processo definido pelo Ministério da Educação! Que os próprios agentes da governação venham agora repudiar os seus anteriores modelos, não é, obviamente, culpa dos professores. Talvez o desencanto, o cansaço, lhes venham daí, e não (por favor!!!!..) por "terem os seus direitos adquiridos e ser mais difícil aceitar outras coisas."
Deveria a escritora Alice Vieira saber que, de cada vez que aqui se muda de governo, muda também – parece que inevitavelmente – o sistema educativo: total ou parcialmente. Se há quem, desde o 25 de Abril de 1974, tenha tido a capacidade de mudar, de aceitar 'outras coisas' , têm sido, precisamente, os professores!

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