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13 de fevereiro de 2009

José Luís Peixoto

Sei que virá cá à escola. E que os alunos do 10.º ano andam a ler os seus livros, preparando-lhe a visita.. Assim, e nesta importada celebração que dá pelo nome de Valentine's Day, aqui fica um poema de amor de José Luís Peixoto:


o tempo, subitamente solto pelas ruas e pelos dias, como a onda de uma tempestade a arrastar o mundo, mostra-me o quanto te amei antes de te conhecer.

eram os teus olhos, labirintos de água, terra, fogo, ar, que eu amava quando imaginava que amava.

era a tua voz que dizia as palavras da vida.

era o teu rosto.

era a tua pele.

antes de te conhecer, existias nas árvores e nos montes e nas nuvens que olhava ao fim da tarde.

muito longe de mim, dentro de mim, eras tu a claridade.


mais sobre este escritor, aqui


postado por ana lima

31 de janeiro de 2009

Prémio Europa-David Mourão-Ferreira 2008

Jacinto Lucas Pires foi distinguido coom o Prémio Europa-David Mourão-Ferreira 2008 pela sua obra Assobiar em Público. O livro é uma recolha de 22 contos, alguns dos quais inéditos, de Jacinto Lucas Pires.
Jacinto Lucas Pires nasceu no Porto em 1974. Vive em Lisboa. Em dez anos publicou quatro livros de teatro, cinco livros de ficção e um de viagens.
O Prémio Europa - David Mourão-Ferreira é instituído pelo Centro de Estudos Lusófonos–Cátedra David Mourão-Ferreira da Universidade de Bari e do Instituto Camões. Este prémio tem o objectivo de difundir a língua portuguesa e as culturas dos países lusófonos homenageando o poeta David Mourão-Ferreira e favorecendo a divulgação das obras dos autores premiados através de um plano coordenado de traduções nos países da União Europeia e do Mediterrâneo.
O prémio conta com o patrocínio do Instituto Camões, da Universidade de Bari, da Câmara de Bari, da Região Apúlia, do Banco Unicredit e de outras Entidades italianas e estrangeiras. Este ano, presidiu ao júri Eduardo Lourenço.
fonte aqui

a nova geração de escritores portugueses: aqui

postado po al

28 de janeiro de 2009

A rapariga que roubava livros, de Markus Zusak

Quando a morte nos conta uma história temos todo o interesse em escutá-la. Assumindo o papel de narrador em A Rapariga Que Roubava Livros, vamos ao seu encontro na Alemanha, por ocasião da segunda guerra mundial, onde ela tem uma função muito activa na recolha de almas vítimas do conflito. E é por esta altura que se cruza pela segunda vez com Liesel, uma menina de nove anos de idade, entregue para adopção, que já tinha passado pelos olhos da morte no funeral do seu pequeno irmão. Foi aí que Liesel roubou o seu primeiro livro, o primeiro de muitos pelos quais se apaixonará e que a ajudarão a superar as dificuldades da vida, dando um sentido à sua existência. Quando o roubou, ainda não sabia ler, será com a ajuda do seu pai, um perfeito intérprete de acordeão que passará a saber percorrer o caminho das letras, exorcizando fantasmas do passado. Ao longo dos anos, Liesel continuará a dedicar-se à prática de roubar livros e a encontrar-se com a morte, que irá sempre utilizar um registo pouco sentimental embora humano e poético, atraindo a atenção de quem a lê para cada frase, cada sentido, cada palavra. Um livro soberbo que prima pela originalidade e que nos devolve um outro olhar sobre os dias da guerra no coração da Alemanha e acima de tudo pelo amor à literatura.
fonte: aqui

O romance é do jovem escritor australiano
Markus Zusak e eu tb o li: achei-o .. uma delícia: divertido às vezes, dorido quase sempre, e de uma ternura .. como só as crianças. Ou a morte: esta, a narradora..

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16 de janeiro de 2009

a literatura, as paixões: Valter Hugo Mãe

Como se atravessa uma ponte, de regresso ao que, para sempre e inexoravelmente, deixou de ser? Como voltar agora ao caminho tranquilo dos livros ‘normais’, depois de dias e dias passados em fascínio, do outro lado? Depois de ter permanecido padecido perecido, lá onde cada linha é um desafio, um mergulho, um salto no escuro; um ser-se - apaixonadamente; um descobrir-se, desabituado de uma linguagem que nos sacode, e que adivinhamos Lugar, e Nascimento. Construção absolutamente nas margens, e ainda assim perceptível. Revolucionarizante, e apesar disso coerente de códigos e regras.

É assim. Há Autores que nos renovam e nos agitam. Que irremediavelmente nos desassossegam. Que nos fazem, também, sentir pequenos, pequenos, pequenos. Este é Um e chama-se Valter Hugo Mãe.

Dele quis ler “o apocalipse dos trabalhadores”, que li recomendado pelo escritor João de Melo como ‘um livro excepcional’. Esgotado, em toda a parte. Do Autor encontrei então um outro romance, edição de bolso com letra de tamanho minúsculo, mesmo assim irrecusável: “o remorso de baltazar serapião”, ganhador, em 2007, do prémio José Saramago, que o apelida de ‘tsunami’. Citando esse outro Grande Transgressor: «Este livro é um tsunami, não no sentido destrutivo, mas da força. Foi a primeira imagem que me veio à cabeça quando o li. […] Tem de ser lido, porque traz muito de novo e fertilizará a literatura

Não vou desvendar enredos, nem deter-me em análises pessoais. Não vou, sequer, referir Cortázar, ou a literatura africana de expressão portuguesa, como influências que, a espaços, me parece descortinar. Deixo-vos com dois excertos, para que possam ajuizar sozinhos, para que (confio ..) em deslumbramento vos cresçam apetites inadiáveis:


« […] nós éramos os sargas, o aldegundes sarga, dos sargas, diziam. ele é sarga, é dos sargas cara chapada. nada éramos os serapião, nome da família, e já nos desimportávamos com isso. dizia o meu pai, o povo simplifica tudo e a nós vêem-nos com a vaca e lembram-se dela, que é mais fácil para se lembrarem de nós e nos identificarem. a vaca era a nossa grande história, pensava eu, como haveria de nos apelidar a todos e servir de tema de conversa quando perguntavam pela mãe, pelo pai, perguntavam pela vaca, magra, feia, tonta da cabeça, sempre pronta a morrer sem morrer. e riam-se assim com o nosso disparate de ter um animal tão tratado como família, e não entendiam muito bem. […]»

«[…] aproximei-me dos dois, grande e imbatível como uma pedra de ódio construída no exercício do meu bom amor, e me pus diante deles tão pequenos. afastaram-se da minha ermesinda que, imóvel, respirou menos, respirou menos, respirou menos, não respirou. a sarga mugiu de modo lancinante. e eu abati-me sobre os dois abrindo lado a lado os braços de punhos fechados. um só golpe certeiro sobre as suas cabeças. um só golpe com a violência da pedra mais furiosa do mundo. sobraram no chão como mais nada ali estivesse. […] »


Notas:
Esqueci-me de dizer: Valter Hugo Mãe não usa maiúsculas – em nada, alegadamente por achar não serem algumas palavras mais importantes que as outras. Mas isso é, apenas, um pormenor, e absolutamente despiciendo.

- tem uma página web, onde se pode ler uma autobiografia deliciosa:
aqui
- um blogue: casadeosso
- está também aqui, juntamente com outros dois prémios J. Saramago

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24 de dezembro de 2008

livros para os mais novos

O meu último post deste ano, que mañana me voy .. :-) - e mais uma sugestão de livros, desta vez para crianças. O meu 'eleito' é António Torrado, um escritor português cujo sítio, na net, (ao que me contaram) chegou a ser objecto de investigação, tão incrivelmente elevados eram os números de acesso à página. Para enorme surpresa dos cibernéticos investigadores (calculo), tratava-se, afinal, de um sítio onde, todos os dias, se conta uma história! O link para a página, que se chama "HISTÓRIA DO DIA", está aqui.

Em baixo, não deixem de ver o vídeo!! só para vos abrir o apetite: «O que eu pretendo é que a escrita não seja muito escrita, muito penteada. Porque nós, quando falamos, falamos às vezes um tanto despenteadamente

António Torrado numa escola

« O vir às escolas, para mim, é tão estimulante como tomar vitaminas.»

António Torrado é por excelência um contador de histórias. Foi galardoado com o Prémio Calouste Gulbenkian de Livros para Crianças (1980), o Prémio de Teatro Infantil da Secretaria de Estado da Cultura (1984), o Grande Prémio Calouste Gulbenkian de Literatura para Crianças (1988), entre muitos outros. Alguns dos seus livros foram incluídos na Lista de Honra do IBBY – Internacional Board on Books for Young People –, nos anos de 1974 e 1996. Segundo o crítico e investigador José António Gomes, “Torrado impôs-se como uma das figuras de maior relevo da nossa literatura do pós-25 de Abril e dificilmente se encontrará hoje um autor que, de forma tão equilibrada, saiba dosear em livro o humor, a crítica e os sinais de um profundo conhecimento do imaginário infantil.”

e no Portal da Literatura (clicar), uma extensa lista de livros deste autor.

Boas escolhas! Boas Férias! Boas Leituras!

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23 de dezembro de 2008

Mikhail Bulgakov: Margarita e o Mestre

Margarita e o Mestre (clicar para ver resenha crítica, resumo e informações sb o autor) foi-me recomendado por uma amiga. O autor, Mikhail Bulgakov (1891-1940) é um romancista e dramaturgo russo da primeira metade do século XX, e Margarita e o Mestre a sua obra mais emblemática. Há quem diga que o Realismo Mágico, cujo início é assinalado por Cem Anos de Solidão, esse livro maior de Gabriel García Márquez, terá sido antecipado (em cerca de 3 décadas) por esta obra prima de Bulgakov.
Pesquisando sobre o autor e este livro, fiquei com imensa vontade de lê-lo. Ora vejam se não vos apetece, também:

o autor: Bulgakov viveu sob o regime de Estaline (...) Em segredo e com o constante temor de ser descoberto, trabalha no manuscrito de Margarita e o Mestre (...) Existe, à época, o termo "bulgakovismo", encarado como um vírus burguês, decididamente pernicioso.

a estória: No centro histórico de Moscovo, no Parque do Lago do Patriarca, um poeta medíocre e um dirigente da MASSOLIT (sigla irónica, que significa literatura de massas, parodiando as associações de escritores do regime) discutem a não existência de Cristo. No banco ao lado, aparece o diabo, na figura de um mágico, Woland (...)
Travamos depois conhecimento com a versátil corte do diabo, de onde emerge a corrosiva sátira política e social que este romance também é, embora a história se centre no amor entre Margarita e o Mestre.

Margarita é uma dama casada e aparentemente bem estabelecida na sociedade, mas profundamente infeliz, até que conhece o Mestre, um escritor desconhecido por quem se apaixona perdidamente. Quando este mestre sem nome é levado (sem que ela saiba) para uma clínica psiquiátrica, depois de ter queimado um manuscrito, Margarita não se conforma (…)

Invertendo o mito de Fausto, Bulgakov põe a sua personagem a oferecer a alma ao diabo para reencontrar o amado e recuperar o manuscrito. Margarita transforma-se em bruxa ...

fontes:
Mil Folhas, artigo de Alexandra Lucas Coelho
(muito interessante)

blogue 'stranger in a strange land', de Safaa Dib: "descobri Mikhail Bulgakov graças a uma curiosa canção (*)dos Franz Ferdinand, em que Margarita voa pelos céus de Moscovo, em busca de vingança pelo seu amor. "

aqui, a música (*) : Love and Destroy .. e a letra, aqui

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22 de dezembro de 2008

livros no natal: série Roma sub-rosa

Se tiverem mesmo de comprar prendas de natal (... sim, que tb há quem já tenha optado por dizer não à febre consumista que define esta época ... :-)) , oferecer livros será sempre uma boa opção. Os que aqui vos propomos vão, com certeza, agradar-vos:
O 'herói' é Gordiano, O Descobridor. A época vai (mais ou menos) de 100 a 50 anos a. C., na Roma antiga. O escritor, americano, chama-se Steven Saylor e é também historiador. A série: ROMA SUB-ROSA, um conjunto de romances empolgantes, que, por entre obscuros meandros de intriga, mistério, paixões, assassinatos, suspense, nos vão suavemente passando umas interessantíssimas lições de história.
O primeiro volume desta colecção chama-se Sangue Romano e está normalmente esgotado, mas cada romance é uma história independente, pelo que qualquer livro desta colecção será um bom princípio para conhecer Gordiano e as suas aventuras.

E depois, sabem como é, quando se espera ansiosamente a publicação de um novo livro? Pois assim é esta série. Absolutamente viciante! Vão aprendendo o nome do autor: Steven Saylor, again, e preparem-se para engrossar a já vasta lista de fãs. Não esqueçam: Roma sub-rosa, o nome que interessa fixar - ou, em alternativa, o de cada um dos 12 volumes (por ordem cronológica) :

  • Sangue Romano
  • A Casa das Vestais
  • Um Gladiador só morre uma vez
  • O Abraço de Némesis
  • O Enigma de Catilina
  • O Lance de Vénus
  • Crime na Via Ápia
  • Rubicão
  • Desaparecido em Massília
  • Névoa de Profecias
  • A Sentença de César
  • O Triunfo de César

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20 de dezembro de 2008

Julio Cortázar (2) - Rayuela

Rayuela significa 'jogo da macaca' (em português do Brasil, 'jogo da amarelinha'). A editora Cavalo de Ferro, que publicou este livro de Julio Cortázar, deu-lhe o nome de 'O Jogo do Mundo' e publicitou-o assim:
A publicação de «O jogo do mundo» (Rayuela) em 1963 foi uma verdadeira revolução no romance mundial: pela primeira vez, um escritor levava até às últimas consequências a vontade de transgredir a ordem tradicional de uma história e a linguagem usada para a contar. O resultado é este livro único, cheio de humor, de risco e de uma originalidade sem precedentes.
Considerado o romance que melhor retrata as inquietudes e melhor resume o Século XX na visão latino-americana do mundo(...) , gerações de escritores são, de uma maneira ou de outra, devedoras de «O jogo do mundo»

noutro post fizémos referência às transgressões de Cortázar, presentes neste romance. Queremos deixar aqui, agora, um excerto que vos leve a entendê-lo, a querer-lhe para além (ou apesar) delas.. e, acreditem, seleccioná-lo, abdicar de uma imensa lista de excertos, ñ foi fácil.. aqui fica, então, a Poesia de Cortázar :

Toco a tua boca.
Com um dedo, toco a borda da tua boca, desenhando-a como se saísse da minha mão, como se a tua boca se entreabrisse pela primeira vez, e basta-me fechar os olhos para tudo desfazer e começar de novo, faço nascer outra vez a boca que desejo, a boca que a minha mão define e desenha na tua cara, uma boca escolhida entre todas as bocas, escolhida por mim com soberana liberdade para desenhá-la com a minha mão na tua cara e que, por um acaso que não procuro compreender, coincide exactamente com a tua boca, que sorri por baixo da que a minha mão te desenha.

início do capítulo 7, "O Jogo do Mundo", Julio Cortázar

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19 de dezembro de 2008

a literatura, as paixões: Julio Cortázar (1)

«Julio Cortázar, escritor e intelectual argentino (1914-1984) é considerado um dos autores mais inovadores e originais do seu tempo», lê-se na informação sobre o autor constante do livro recém-editado em Portugal, 'O Jogo do Mundo' (Rayuela), da cavalo de ferro.
Pois eu (que até leio umas coisas..) não conheço ninguém mais original, mais ousado, mais transgressor dos cânones académicos que enformam (espartilham?) a criação literária. Dir-se-ia, pelo que dele conheço e que se resume a um livro, Rayuela (e perdoar-me-ão a blasfémia ..) uma esquizofrenia intelectual, uma construção narrativa eivada de um lsdismo tão indissociável desses gloriosos anos 60 do século passado..

tenho de esclarecer que adorei conhecer este autor. que deste seu romance que são dois, li tudo, incluindo os 'capítulos dispensáveis'. que me deslumbrou, precisamente, isso a que chamo 'esquizofrenia'. que ñ parei de me surpreender com a ousadia deste homem, com as impensáveis transgressões, capítulo a capítulo. só mesmo alguém muito consciente da sua genialidade. alguém muito louco, e é um elogio. alguém com um sentido de humor único. alguém que ama tanto a literatura, que com ela se entretém em permanentes - quase eróticos - jogos recriativos. alguém a quem não importa um mínimo (a palavra ideal ñ seria esta, mas ñ vou ferir susceptibilidades..) a opinião dos outros (e é, novamente, um elogio). alguém no limiar da vida, e da morte, e de tudo.

aviso aos alunos no geral e às pessoas susceptíveis em particular:
NÃO LER as partes a azul-esverdeado deste post!

os outros ... podem dar uma olhadela aos:
exemplos de transgressões presentes no romance 'O Jogo do Mundo'
1.
«Julio Cortázar, escritor e intelectual argentino, é considerado
tenho de esclarecer que adorei conhecer este autor.
um dos autores mais inovadores e originais do seu tempo»
que deste seu romance que são dois, li tudo
2.
não parei de me surpreender com a housadia deste homem, com as himpensáveis transgressões
3.
tenho de esklarecer ke adorei konhecer este autor. ke deste seu romance ke são dois, li tudo
4.
as inhpençáveis trãsgreçõins, capitllo a capitlo. só mesmo alguenhe muito conssiente da sua xeniali dá-de


perplexos? qq dúvida, é só deixarem um comentário! :-)
no próximo capítulo, não percam: excertos (sem transgressões:-) de rayuela = jogo da macaca = jogo da amarelinha = o jogo do mundo

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13 de dezembro de 2008

a literatura, as paixões: Pérez-Reverte

Arturo Pérez - Reverte (clicar) , um dos mais mediáticos autores da actualidade, (também pela adaptação de livros seus ao cinema) , é um escritor brilhante, que, em cada livro, consegue a proeza rara de recrear um universo linguístico próprio, que adapta de forma magistral aos ambientes em que se movem os seus personagens. [Sei-o, porque foi com os seus romances que comecei a aprender espanhol, e só ao 3.º que li, La Tabla de Flandes, é que consegui identificar a linguagem dos meus amigos de Barcelona!!]

Uma das coisas que mais me fascina em Pérez Reverte (clicar para ler + informação em português), para além das elaborações filosóficas (absolutamente perturbantes, por exemplo, no romance 'O Pintor de Batalhas'), é o cuidado que põe na construção dos seus personagens, a quem logra dar vida com o carinho e a atenção de uma mãe, com a profundidade amniótica de um mar ... sublimes, as figuras femininas, muito na linha das de Saramago.

Para além disso, há sempre, nos seus livros, um elemento de suspense e de mistério, um pouco como nos romances policiais. As tramas são urdidas com uma inteligência tal, que Pérez-Reverte consegue, ao sugerir subtilmente o desenvolvimento da narrativa, envolver-nos da primeira à última página - como uma compulsão - enquanto nos faz cúmplices (quase co- autores) das suas histórias.

Livros seus que recomendo vivamente (clicar para ler sinopse):
O Pintor de Batalhas ("a sua criação mais melancólica, mais terna, mais íntima")

  • aqui, o seu site oficial
  • uma página muito interessante sobre Pérez Reverte, que inclui citações suas, p. ex, "El mar es el único refugio que me resta" : aqui
  • e ainda + uma página, no Dpt de línguas (clicar): sb Pérez-Reverte e outros autores de língua espanhola

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28 de novembro de 2008

literatura: venenos de deus, remédios do diabo

  • Aos 10 anos todos nos dizem que somos espertos, mas que nos faltam ideias próprias.
  • Aos 20 anos dizem que somos muito espertos, mas que não venhamos com ideias.
  • Aos 30 anos pensamos que ninguém mais tem ideias.
  • Aos 40 achamos que as ideias dos outros são todas nossas.
  • Aos 50 pensamos com suficiente sabedoria para já não ter ideias.
  • Aos 6o ainda temos ideias, mas esquecemos do que estávamos a pensar.
  • Aos 70, só pensar já nos faz dormir.
  • Aos 80 só pensamos quando dormimos.
fala de Bartolomeu Sozinho, mais filósofo que marinheiro, personagem de Venenos de Deus, Remédios do Diabo, o último romance do escritor moçambicano Mia Couto. (clicar no nome para ler entrevista no JL)
a.l.

26 de novembro de 2008

a literatura, as paixões: Carlos Ruiz Zafón

«Da próxima vez que quiseres salvar
um livro, não precisas de arriscar a vida ..!
Vou levar-te a um lugar secreto,
onde os livros nunca morrem,
e onde ninguém pode destruí-los! »

Este, o lugar mágico de A Sombra do Vento, o livro que tornou famoso o seu autor, Carlos Ruiz Zafón, também compositor... Um lugar que podes agora revisitar em O Jogo do Anjo, um romance em que Zafón te transporta, de novo, à Barcelona do Cemitério dos Livros Esquecidos. Um labirinto de segredos onde a intriga, o mistério, o feitiço dos livros e a paixão se conjugam num relato empolgante.
Encontra-lo na Feira do Livro, até 6ª...

mas antes, o que te deixamos, AQUI , é um convite: entra, olha por um instante o azul...há um dragão...fixa-te na espiral da cauda ... deixa-te hipnotizar ... agora fecha os olhos ... ouve o piano ...

a. l.

21 de novembro de 2008

livros novos na BIB

Para começar, uma citação de Saramago sobre géneros literários (a renovação de conceitos): «... em minha opinião, o romance deixou de ser um género para se transformar num espaço literário aonde tudo pode e deve confluir. Até a filosofia. » A citação é retirada de uma entrevista (clicar aqui) que Saramago deu a jornais brasileiros e em que fala do seu novo romance]

Agora a imagem: é um quadro de Pablo Picasso, chama-se "La Lectura", e gosto tanto dela q a ponho aqui sp q posso ... :-)

Relativamente ao título deste post, as novidades: a biblioteca da ESAG adquiriu vários novos livros para requisição domiciliária, nomeadamente:

Já sabem, durante 15 dias (prorrogáveis) podem ter qualquer * destas obras em casa: páginas e páginas de puro deleite!

* a do Julio Cortázar requisitei-a eu, terão de esperar... :-)

Boas leituras, então!

postado por ana lima

2 de novembro de 2008

as paixões, os livros: Man in the Dark

Em vésperas de eleições nos Estados Unidos, a sugestão de uma leitura: Man in the Dark (clicar para ver sinopse, etc), um livro do escritor americano Paul Auster.
Numa estória dentro da estória, há um homem que, nas suas noites de insónia, vai imaginando, construindo uma América 'alternativa', cuja História começa no ano 2000, logo após a eleição de Bush. Revoltados com o resultado das eleições (em que Al Gore, reunindo mais votos, é, no entanto, derrotado - lembram-se daquelas contagens e recontagens?), os Estados começam a declarar a sua separação da União. O primeiro, claro! (ver em baixo porquê - 'claro' ) é o de Nova Iorque. Outros 15 se lhe seguirão e a América está em guerra. Nada de novo, só que, desta vez, não com o mundo, mas consigo própria.

Neste mundo paralelo, o 11 de Setembro (2001) nunca aconteceu. As torres gémeas continuam de pé. Não houve a invasão do Afganistão. Não há guerra no Iraque. «Há uma guerra civil em que não se disparam balas, mas sim ideias, e que se leva ao limite». Tão ou mais mortíferas, igualmente devastadoras. Ler aqui a entrevista do autor ao El País: - interessantíssima, elucidativa: «Nos EU há dois mundos que não comunicam entre si!»

O tema deste romance de Paul Auster 'nasce' de um inconformismo, uma não-aceitação do 'estado das coisas', no seu país: «Há oito anos, desde o golpe de estado legal que derrotou Al Gore, que sinto como se vivesse num mundo paralelo que acabou por tornar-se real, e tudo só tem vindo a piorar!»

Não é casualidade que a guerra civil de Brick (o 'homem no escuro') comece com a independência de Nova York. "E não é piada: há muita gente que pensa que NY deveria ser um Estado independente; tanto que, após o 11 de Setembro, houve uma revista de poesia que escreveu, na 1ª página: 'USA out of NYC'; muitos outros odeiam NY pelo que representa, com 40% da população vinda de fora...".
Acrescente-se que Auster votará em Obama ("em condições normais, tendo a Administração de Bush funcionado tão mal, Obama deveria ganhar, mas há a questão de ser negro: em 4 de Novembro veremos o quão racistas são os EU") - Paul Auster, ao El País

O livro, interessantíssimo, não está ainda traduzido em Portugal. Encontram-no na Fnac (ou podem encomendá-lo aqui ) na versão original. O Inglês é muito acessível. E .. recomendo-o vivamente! Vão ver que o lêem de um fôlego!:-)
Sobre o Paul Auster, há neste blog outro post, a 24 de Outubro. Podem vê-lo em vídeo, lendo excertos de 'Man in the dark' - garanto que vale a pena!:-)

postado por ana lima

28 de outubro de 2008

Literatura: O primeiro amor

Aqui fica um bonito texto de Miguel Esteves Cardoso,

enviado pela Carla, do 11.ºD

É fácil saber se um amor é o primeiro amor ou não. Se admite que possa ser o primeiro amor, é porque não é, o primeiro amor só pode parecer o último amor. É o único amor, o máximo amor, o irrepetível e incrível e antes-morrer-que-ter-outro amor. Não há outro amor. O primeiro amor ocupa o amor todo.
Nunca se percebe bem por que razão começa. Mas começa. E acaba sempre mal só porque acaba. Todos os dias parece estar mesmo a começar porque as coisas vão bem, e o coração anda alto. E todos os dias parece que vai acabar porque as coisas vão mal e o coração anda em baixo.
O primeiro amor dá demasiadas alegrias, mais do que a alma foi concebida para suportar. É por isso que a alegria dói – porque parece que vai acabar de repente. E o primeiro amor dói sempre mais, sempre muito mais do que aguenta e encaixa o peito humano, porque a todo o momento se sente que acabou de acabar de repente. O primeiro amor não deixa de parte um único bocadinho de nós. Nenhuma inteligência ou atenção se consegue guardar para observá-lo. Fica tudo ocupado. O primeiro amor ocupa tudo. É inobservável. É difícil sequer reflectir sobre ele. O primeiro amor leva tudo e não deixa nada.
Diz-se que não há amor como o primeiro e é verdade. Há amores maiores, amores melhores, amores mais bem pensados e apaixonadamente vividos. Há amores mais duradouros. Quase todos. Mas não há amor como o primeiro. É o único que estraga o coração e que o deixa estragado.
É como a criança que põe dedos dentro de uma tomada eléctrica. É esse o choque, a surpresa “Meu Deus! Como pode ser!” do primeiro amor. Os outros amores poderão ser mais úteis, até mais bonitos, mas são como ligar electrodomésticos à corrente. Este amor mói-nos o juízo como a Moulinex mói café. Aquele amor deixa-nos cozidos por dentro e com suores frios por fora, tal e qual um micro-ondas. Mas o “Zing!” inicial, o tremor perigoso que se nos enfia por baixo das unhas e dá quatro mil voltas ao corpo, naquele micro-segundo de electricidade que nos calhou, só acontece no primeiro amor.
O primeiro amor é aquele que não se limita a esgotar a disposição sentimental para os amores seguintes: quer esgotá-la. Depois dele, ou depois dela, os olhos e os braços e os lábios deixam de ter qualquer utilidade ou interesse.
Não há amor como o primeiro. O primeiro amor é uma chapada, um sacudir das raízes adormecidas dos cabelos, uma voragem que nos come as entranhas e não nos explica. Electrifica-nos a capacidade de poder amar. Ardem-nos as órbitas dos olhos, do impensável calor de podermos ser amados. Atiramo-nos ao nosso primeiro amor sem pensar onde vamos cair ou de onde saltámos. Saltamos e caímos.
O primeiro amor está para além das categorias normais da dor e do prazer. Não faz sentido sequer. Não tem nada a ver com a vida. Pertence a um mundo que só tem duas cores – o preto-preto feito de todos os tons pretos do planeta e o branco-branco feito de todas as cores do arco-íris, todas a correr umas para as outras.
Não há regra para gerir o primeiro amor. Se fosse possível ser gerido, ser previsto, ser agendado, ser cuidado, não seria o primeiro. A única regra é: Não pensar, não resistir, não duvidar. Como acontece em todas as tragédias, o primeiro amor sofre-se principalmente por não continuar.
Mas é por ser insustentável e irrepetível que o primeiro amor não se esquece. Parece impossível porque foi. Não deu nada do que se quis. Não levou a parte nenhuma. O primeiro amor deveria ser o primeiro a esquecer-se, mas toda a gente sabe, durante o primeiro amor ou depois, que é sempre o último.


postado por ana lima

24 de outubro de 2008

A literatura, as paixões: Paul Auster

«Para mim, escrever não é já um acto de vontade. É uma questão de sobrevivência».
Esta é a frase que abre o seu site definitivo - clicar aqui para ver 'tudo' sobre este autor, uma das minhas paixões maiores..


Paul Auster, que é considerado 'o mais europeu dos escritores americanos' parece ser menos conhecido e menos apreciado no seu próprio país do que na Europa ...
Em entrevistas ao jornal El Periódico de Catalunya e ao El País: 'Os Estados Unidos vivem uma guerra civil de ideias', explica:

"Tenho mais leitores na Alemanha, na França e em Espanha , porque são países onde as pessoas ainda se interessam pela literatura. A este nível, os Estados Unidos são um deserto ".
E continua: "A culpa desta situação é do sistema educativo herdeiro da política de Bush, que foi o pior que podia ter acontecido a este país. Neste momento estamos a criar uma geração para quem ler não tem o mínimo valor."


No vídeo abaixo (passem a parte do apresentador), Paul Auster lendo excertos do seu último romance, 'Man in the dark'. No fim há a conversa com o público, talvez a parte mais interessante, porque desvenda o homem por detrás do autor (modesto, tímido, tímido, que dói - apetece dar-lhe colo ... a ele e ao rapaz que lhe faz as 1ªs perguntas ... uns queridos ... nova-iorquinos, claro, uma 'sobre-espécie' dentro dos EU)



Apaixonado também pelo cinema, Paul Auster escreveu o argumento de 'Smoke' , um filme de Wayne Wang, com quem depois co-realizaria 'Blue in the Face'. Duas delícias, de 1995. Em 1998, realizou o seu primeiro filme, 'Lulu on the Bridge'.

Em 2006 esteve em Portugal para a rodagem do último filme em que foi argumentista e co-realizador, 'The inner life of Martin Frost'. Ver entrevista aqui .

Também o seu perturbante, estranho e belíssimo romance, 'The Music of Chance' , foi adaptado ao cinema em 1993.


Livros do Paul Auster (clicar para ver sinopse) que recomendo (mais) vivamente:
- Mr Vertigo
- A Música do Acaso
- Man in the Dark (ainda ñ traduzido em Portugal)
- A Noite do Oráculo
- O Livro das Ilusões
- As Loucuras de Brooklyn

postado por ana lima

15 de outubro de 2008

As paixões, os livros: La Catedral del Mar

É um livro apaixonante, daqueles por que [assim mesmo, separado= pelos quais] apetece regressar a casa … O romance (que já vai na 36ª edição) chama-se “A Catedral do Mar” e o seu autor, um espanhol, leia-se,... catalão :-) de Barcelona: Ildefonso Falcones


Falcones faz um retrato empolgante de uma Catalunha medieval assolada por conflitos feudais, pela guerra, a peste, a inquisição… Os personagens principais acabam por ser o Povo – sofrido e ao mesmo tempo heróico, e a sua cidade condal, Barcelona, que, como uma mãe, acolhe e dá estatuto de cidadãos livres a quantos se refugiam no seu seio.

Assim um cheirinho a “O Memorial do Convento”, do Nobel português (que lucidamente se mudou para Lanzarote) José Saramago, e a “A História do Rei Transparente”, da madrilena Rosa Montero.

'encuentros digitales' com o autor: aqui


postado por ana lima

11 de outubro de 2008

Le Clézio, Prémio Nobel da Literatura 2008

(agência Lusa): Jean-Marie Gustave Le Clézio, de 68 anos, foi no dia 9 de Outubro distinguido pela Academia Sueca com Prémio Nobel da Literatura 2008.

Le Clézio receberá a medalha e o diploma das mãos do Rei da Suécia, Carlos Gustavo, a 10 de Dezembro, em Estocolmo, e um cheque de 10 milhões de coroas suecas (1,02 milhão de euros).

O júri justificou a atribuição do prémio ao autor francês caracterizando-o como um "escritor da ruptura, aventura poética e êxtase sensual, explorador de uma humanidade mais além e na base da civilização reinante".
Le Clézio, que é considerado em França um dos maiores escritores da língua francesa contemporâneos, 'bateu' nomes altamente cotados, como o americano Philip Roth e o britânico Ian McEwan.
"Escrever não é apenas ficar sentado na sua mesa consigo mesmo, é escutar o ruído do mundo. Quando se está na posição de escritor, percebe-se melhor o ruído do mundo, vai-se de encontro ao mundo", disse o autor, que reside no Novo México e é um apaixonado pela cultura hispano-americana.

E aproveitou a janela aberta pelo Nobel para recomendar a leitura de romances como antídoto para os problemas que afectam a humanidade, por exemplo, a crise económica com "a tendência excessiva de destacar o perigo que representam os estrangeiros".

"Ler romances é uma boa forma de interrogar o mundo actual sem que o resultado sejam respostas demasiado esquemáticas. O romancista não é um filósofo, não é um técnico da língua, é alguém que faz perguntas e, se há uma mensagem que gostaria de enviar, é a de que devemos fazer perguntas", disse Le Clézio.

notícia em: http://www.estadao.com.br/arteelazer/not_art256773,0.htm

a lista dos 10 últimos vencedores do Nobel da Literatura:

- 2007: Doris Lessing (Reino Unido)
- 2006: Orhan Pamuk (Turquia)
- 2005: Harold Pinter (Reino Unido)
- 2004: Elfriede Jelinek (Áustria)
- 2003: J.M. Coetzee (África do Sul)
- 2002: Imre Kertesz (Hungria)
- 2001: V.S. Naipaul (Trinidad/Reino Unido)
- 2000: Gao Xingjian (China)
- 1999: Gunter Grass (Alemanha)
- 1998: José Saramago (Portugal)


postado por ana lima

8 de outubro de 2008

escritor português premiado em Itália

Lisboa, 04 Out (Lusa) -- O escritor Mário de Carvalho venceu o 'Premio Internazionale Città di Cassino', atribuído ao seu livro "Os Alferes", publicado pela Caminho em 1989 e recentemente editado em Itália, com o título "I Sottotenenti".

Já no ano anterior Mário de Carvalho fora galardoado com outro prémio literário italiano, o 'Giusepi Acerbi', dessa vez pelo belíssimo romance "Um deus passeando pela brisa da tarde".


Voltaremos a este escritor presto, presto, na nossa rubrica 'A literatura, as paixões'.

postado por ana lima

4 de outubro de 2008

a literatura, as paixões: João de Melo

Numa altura em que a chamada 'prosa light' prolifera pelas livrarias como maçãs envenenadas, vamos aqui, periodicamente, dedicar alguns posts à divulgação, sim, mas da boa literatura.
E ... gracias! - aos bons autores e aos bons livros, que nos preenchem: de sonhos, de sombras, e de vida ...

Comecemos, então, pelo senhor ao lado: João de Melo (além de escritor, também professor, actualmente Conselheiro Cultural na Embaixada de Portugal em Madrid e principal responsável pela Mostra da Cultura Portuguesa)

João de Melo é um mago das palavras, que entretece com uma mestria rara (muito rara..), num registo intimista e quase sempre comovente. Escreve como se, sussurrando ao ouvido do leitor, se confessasse . Ou como se compusesse música: às vezes uma sinfonia, uma sonata (- appassionata...) , às vezes um requiem.

A sua prosa é intensamente poética, de uma sensibilidade primordial, à flor da pele. Mesmo quando, “um cão revolvendo-se-lhe no estômago ou nos pulmões”, se entrega - inteiro, desnudo, ao relato de experiências terríveis - vividas ou imaginadas. É assim, por exemplo, no conto “A Esposa”, mas sobretudo nesse inigualável “Autópsia de um Mar de Ruínas”: um romance visceral, 'dorido e doloroso', a um tempo belo e cruel. A palavra em carne viva, a memória enferma da guerra colonial em Angola, onde (citando Nuno Bragança) "foi - para salvar vidas." Um livro que dói como uma perda, ou uma pedra. Um livro que não conseguimos - que não podemos - deixar de ler.

Depois ... em João de Melo há também Lisboa, a cidade onde viveu grande parte da sua vida – uma cidade que ele vê em arco, onde 'é' ..."O Homem Suspenso". E há Évora, que ama 'como a si mesmo'. Há as ilhas. E as frágeis criptomérias, sempre tão carentes de amor …
E há o mar (oh, sim, o mar!...) : o branco, dos Açores, o de Madrid, do seu último romance, e sobretudo, o outro, do conto “O Gémeo e a Sombra”. Do mais bonito que alguma vez li…


Então..? Imperdoável não conhecer este escritor, verdad ? Peçam-no aqui, na biblioteca, perguntem por ele na Fnac, nas livrarias da Baixa, na Byblos (conhecem? - boa oportunidade para uma visita, não? Fica em frente às Amoreiras, em Lisboa).

- clicar para ler aqui, uma carta lindíssima, lindíssima , de um personagem da "Autópsia de um Mar de Ruínas" (ao meio)


Notas:
- os contos acima referidos estão no livro “As Coisas da Alma” - [não deixem de ler!!]

- das criptomérias, de Évora e de outros amores fala João de Melo no seu “Dicionário de Paixões” - [óptimo, também]

- "O Homem Suspenso" é um dos romances seus que prefiro


postado por ana lima