31 de janeiro de 2009

Prémio Europa-David Mourão-Ferreira 2008

Jacinto Lucas Pires foi distinguido coom o Prémio Europa-David Mourão-Ferreira 2008 pela sua obra Assobiar em Público. O livro é uma recolha de 22 contos, alguns dos quais inéditos, de Jacinto Lucas Pires.
Jacinto Lucas Pires nasceu no Porto em 1974. Vive em Lisboa. Em dez anos publicou quatro livros de teatro, cinco livros de ficção e um de viagens.
O Prémio Europa - David Mourão-Ferreira é instituído pelo Centro de Estudos Lusófonos–Cátedra David Mourão-Ferreira da Universidade de Bari e do Instituto Camões. Este prémio tem o objectivo de difundir a língua portuguesa e as culturas dos países lusófonos homenageando o poeta David Mourão-Ferreira e favorecendo a divulgação das obras dos autores premiados através de um plano coordenado de traduções nos países da União Europeia e do Mediterrâneo.
O prémio conta com o patrocínio do Instituto Camões, da Universidade de Bari, da Câmara de Bari, da Região Apúlia, do Banco Unicredit e de outras Entidades italianas e estrangeiras. Este ano, presidiu ao júri Eduardo Lourenço.
fonte aqui

a nova geração de escritores portugueses: aqui

postado po al

John Martyn

Fiquei a saber da sua morte pelo blogue do vhm, casadeosso. Não conhecia, achei bonito, intimista:

John Martyn, 'May you never'

aqui, noutra versão: o mesmo cantor??!! agradecem-se esclarecimentos..

al

29 de janeiro de 2009

as paixões, os livros: o apocalipse dos trabalhadores

acabei de ler o apocalipse dos trabalhadores, de valter hugo mãe (pois.. tudo em letra pequena, que ele não gosta de maiúsculas!:-)). tempo, então, de me sentir órfã, como sempre acontece depois que uma obra maior me agita e desassossega, me preenche, me adopta.
  • não sei se é a fluidez da escrita, o registo oral parecendo fácil assim transposto, a natural integração dos diálogos, numa técnica que me soa ‘saramaguiana’.
  • o carácter agridoce dos seus personagens, tão vulgares, simultaneamente, tão sublimes.
  • a criatividade, a imaginação deliciosamente delirante.
  • ou se é a transgressão formal, a pontuação reduzida ao mínimo, praticamente só vírgulas e pontos.
  • será antes, talvez, a capacidade invulgar de elevar um quotidiano cinzento a uma claridade de nuvens. de transportá-lo ainda além, até às portas do céu: uma praça pejada de vendedores ambulantes (uma rebaldaria), onde a maria da graça espera grita insulta desespera, e o são pedro, casmurro: vai-te embora, mulher, não entendes que não vale a pena morrer de amor.
  • será, também, o desfazer da lógica que, simples, se torna evidência incontornável. ou o humor posto assim, naturalmente, na ‘pessoa’ de um cão chamado portugal: cala-te, palerma, onde é que já se viu um país a ladrar.
  • ou então, o amor a-final da quitéria tornada indefesa pelo toque desse homem que se desiste máquina, desse jovem ucraniano (sete milhões de mortos de fome nas décadas de 20 e 30 do século vinte, sabiam? ..), desse andriy filho de ekaterina farol-casa-parede-mestra, cansada ekaterina, ekaterina desmaterializando-se, andriy filho de sasha-louco: imagina-me sorrindo, filho.
  • os personagens expondo-se, inteiros, e nós entrando-lhes dentro. e eles insinuando-se, entranhando-se. e corrompendo-nos, como o maldito-amado-senhor-ferreira à mulher-a-dias maria da graça: ensinando-lhe goya, os artistas que são capazes até de surpreender o criador. e o requiem de mozart, o volume posto no máximo, anunciando-lhe a despedida, emoldurando-lhe a final celebração.

só a paixão pode, num momento de afinidade com a vontade de deus, resultar numa obra tão impossível, e isto é fernando pessoa. ou, como diz o próprio vhm, "uma escrita por dentro da pele". é esse, certamente, o segredo, o fascínio deste romance. isso, e o amor imenso que dessa escrita se desprende. a cada folha lida, partilhada, volatilizando-se. contaminando-nos. porque o amor não cabe quieto no espaço tão pequeno que é o corpo de uma mulher. no de um livro também não.

obrigada, valter hugo. e que venha um romance novo, depressa, urgentemente.


todas as frases em itálico são transcrições de 'o apocalipse dos trabalhadores'

uma entrevista ao autor, aqui

al

2 poemas de Sophia

DATA

Tempo de solidão e de incerteza
Tempo de medo e tempo de traição
Tempo de injustiça e de vileza
Tempo de negação
Tempo de covardia e tempo de ira
Tempo de mascarada e de mentira
Tempo de escravidão
Tempo dos coniventes sem cadastro
Tempo de silêncio e de mordaça
Tempo onde o sangue não tem rasto
Tempo da ameaça




Sophia e escritores seus contemporâneos, aqui


PORQUE

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.



no desenho: link para uma entrevista
al

28 de janeiro de 2009

A rapariga que roubava livros, de Markus Zusak

Quando a morte nos conta uma história temos todo o interesse em escutá-la. Assumindo o papel de narrador em A Rapariga Que Roubava Livros, vamos ao seu encontro na Alemanha, por ocasião da segunda guerra mundial, onde ela tem uma função muito activa na recolha de almas vítimas do conflito. E é por esta altura que se cruza pela segunda vez com Liesel, uma menina de nove anos de idade, entregue para adopção, que já tinha passado pelos olhos da morte no funeral do seu pequeno irmão. Foi aí que Liesel roubou o seu primeiro livro, o primeiro de muitos pelos quais se apaixonará e que a ajudarão a superar as dificuldades da vida, dando um sentido à sua existência. Quando o roubou, ainda não sabia ler, será com a ajuda do seu pai, um perfeito intérprete de acordeão que passará a saber percorrer o caminho das letras, exorcizando fantasmas do passado. Ao longo dos anos, Liesel continuará a dedicar-se à prática de roubar livros e a encontrar-se com a morte, que irá sempre utilizar um registo pouco sentimental embora humano e poético, atraindo a atenção de quem a lê para cada frase, cada sentido, cada palavra. Um livro soberbo que prima pela originalidade e que nos devolve um outro olhar sobre os dias da guerra no coração da Alemanha e acima de tudo pelo amor à literatura.
fonte: aqui

O romance é do jovem escritor australiano
Markus Zusak e eu tb o li: achei-o .. uma delícia: divertido às vezes, dorido quase sempre, e de uma ternura .. como só as crianças. Ou a morte: esta, a narradora..

al

27 de janeiro de 2009

aprender com os melhores

Espantoso como eles já sabiam isto, no século XVI! (e vão 5..) E atenção, que não se trata de uns quaisquer teorizadores menores, longe disso! Eles são, nada menos, que os (alegadamente? reconhecidamente?) maiores educadores de todos os tempos: os Jesuítas!!!

Ora então vejam, e aprendam..


RATIO STUDIORUM (*)
da Companhia de Jesus (1599)- excertos

“Nada deve ser mais importante nem mais desejável (…) do que preservar a boa disposição dos professores (…). É nisso que reside o maior segredo do bom funcionamento das escolas (…).” “Com amargura de espírito, os professores não poderão prestar um bom serviço, nem responder convenientemente às [suas] obrigações.”
“Quando um professor desempenha o seu ministério com zelo e diligência, não seja esse o pretexto para o sobrecarregar ainda mais e o manter por mais tempo naquele encargo. De outro modo os professores começarão a desempenhar os seus deveres com mais indiferença e negligência, para que não lhes suceda o mesmo.”

Incentivar e valorizar a sua produção literária: porque “a honra eleva as artes.”

“Em meses alternados, pelo menos, o reitor deverá chamar os professores (…) e perguntar-lhes-á, com benevolência, se lhes falta alguma coisa, se algo os impede de avançar nos estudos e outras coisas do género. Isto se aplique não só com todos os professores em geral, nas reuniões habituais, mas também com cada um em particular, a fim de que o reitor possa dar-lhes mais livremente sinais da sua benevolência, e eles próprios possam confessar as suas necessidades, com maior liberdade e confiança. Todas estas coisas concorrem grandemente para o amor e a união dos mestres com o seu superior. Além disso, o superior tem assim possibilidade de fazer com maior proveito algum reparo aos professores, se disso houver necessidade.”

"I. 22. Para as letras, preparem-se professores de excelência
Para conservar (…) um bom nível de conhecimento de letras e de humanidades, e para assegurar como que uma escola de mestres, o provincial deverá garantir a existência de pelo menos dois ou três indivíduos que se distingam notoriamente em matéria de letras e de eloquência. Para que assim seja, alguns dos que revelarem maior aptidão ou inclinação para estes estudos serão designados pelo provincial para se dedicarem imediatamente àquelas matérias – desde que já possuam, nas restantes disciplinas, uma formação que se considere adequada. Com o seu trabalho e dedicação, poder-se-á manter e perpetuar como que uma espécie de viveiro para uma estirpe de bons professores.

II. 20. Manter o entusiasmo dos professores
O reitor terá o cuidado de estimular o entusiasmo dos professores com diligência e com religiosa afeição. Evite que eles sejam demasiado sobrecarregados pelos trabalhos domésticos."


(*) ratio studiorum (do latim: plano de estudos: uma espécie de manual de pedagogia)

al

26 de janeiro de 2009

jazz: M.ª João e Mário Laginha

do álbum 'Chocolate' (2008): letra: Alan Jay Lerner / música: Frederick Loewe ; voz: Maria João; piano: Mário Laginha
Ive Grown Accustomed to His Face

al

na Y- blogosfera: Queque com Passas

São 2 + 4. Dos 4, 1 mudou-se da António Gedeão para a Emídio. 3 são meus alunos este ano e têm .. uma 'latosa' que só visto. Ora leiam: «Ora bem, depois de pedincharmos, a nossa professora de Inglês veio ao nosso blog e comentou-o (só a pedinchar é que as pessoas comentam, ai, ai...). »
Pois .. pedincharam mais uma coisita, e eu até fiz (horror!!..) chantagem, qq coisa do tipo: ou vão ao ESAGBIB deixar um comentário, ou não têm publicidade grátis! :-)) - o facto é q resultou, e por isso aqui estão hoje, com todo o destaque: ladies and gentlemen, Y and O, os ....... queque com passas!!! - basicamente dois amigos com muita criatividade, muito humor, muita vontade de fazerem coisas. Os outros 4, calculo que sejam 'contratados' à tarefa .. :-)) ?

Então o blogue, que até agora era «podcast/blog» e pelos vistos (ainda não decidiram..) vai deixar de o ser, porque o André e o Tiago já quase esgotaram o espaço disponível com a rubrica "a tua musiquinha não é melhor que a minha" : eles fazem teatro; filmam o teatro; colocam o vídeo no youtube e publicam-no no seu probably-about-not-to-be-a-podcast. Mais:
  • eles representam de pijama.
  • eles não têm falsos pudores, nem de linguagem.
  • eles odeiam os Megadeth ..
  • eles postam uns comentários, às vezes: aqui .. e ali, na coluna à direita..
  • eles divertem-se que nem macacos em dia de comer bananas (ñ se ofendam, foi só .. uma tentativa de 'entrar' na vossa onda .. :-))
  • eles, parece-me, têm muito pouco tempo para estudar. Vá lá professores, entendam, são dois artistas portugueses!
  • eles são .. o .. QUEQUE COM PASSAS!
o link, aqui - e divirtam-se!

quadro: 'meine Freunde' (os meus amigos), de Marika Raake

al

eclipse com anel

Uns quantos sortudos que estejam hoje lá para os lados do Oceano Índico poderão apreciar um acontecimento raro, quando um eclipse solar anelar transformar o sol num disco negro com uma luminosa coroa à volta, em forma de anel.

Nos eclipses solares, a lua posiciona-se entre o sol e a terra, projectando a sua sombra na superfície terrestre. Um ligeiríssimo desacerto no alinhamento dos 3 astros leva a que a lua não cubra completamente a face visível do sol, como acontece nos eclipses totais, assim dando origem ao deslumbrante eclipse anelar.

fonte: aqui
explicações mais científicas e outras imagens de eclipses: aqui

e, por sugestão de uma visitante imprescindível.., um vídeo


al

24 de janeiro de 2009

a música como arma: Adriano Correia de Oliveira

clicar na foto para ouvir A.C.O.

  • porque atrás dos tempos vêm tempos..
  • porque, de novo, este é o tempo em que os homens renunciam ..
  • e porque só estas canções me parecem, agora, fazer sentido ..

    - um site que as reúne quase todas: AQUI
  • ao meio, onde diz "canções de intervenção", ir seleccionando.. É só clicar para ouvir .. eu gosto muito da n.º 19: CANÇÃO COM LÁGRIMAS, música e voz de Adriano Correia de Oliveira, letra de Manuel Alegre: dedicada a um amigo que morreu na guerra colonial

no vídeo:trova do vento que passa: "há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz: NÃO! "

quando morreu o Adriano, dele disse Zeca Afonso: "Desapareceu o último cantor de intervenção."

al

23 de janeiro de 2009

quando os lobos uivam

  • Quando os Lobos Uivam: romance (censurado) de Aquilino Ribeiro
  • série (baseada no romance homónimo de Aquilino Ribeiro) sobre a saga dos beirões em defesa dos terrenos baldios durante a ditadura, adaptada por Francisco Moita Flores
  • justiça da noite
    : na ilha Terceira: a mesma luta contra a abusiva apropriação de terrenos baldios que, segundo o direito consuetudinário insular, pertenciam aos povos das freguesias, como logradouros comuns
  • Edição comemorativa
    do 50.º aniversário da 1.ª edição de 'quando os lobos uivam': prefácio inédito de Álvaro Cunhal; 20 ilustrações de João Abel Manta
  • espécie em risco de extinção: o
    lobo ibérico [página do Grupo ecologista Lobo] : canis lupus signatus [página dedicada a um dos animais mais belos, inteligentes e misteriosos ..]

o quadro: Aquilino Ribeiro, por Artur Bual

no vídeo: a beleza (a tristeza) dos lobos, da música andina:

oiçam-nos, vejam se não vos apetece também .. .. ..


sejamos o lobo do lobo do homem .. (caetano veloso, 'língua')

al

e vão 3: CANSAÇO

na A. R. , hoje, pela 3.ª vez !! ... mais explicações para quê?

Parece-me é haver qualquer coisa de muito incongruente, nisso a que chamam 'disciplina de voto' : votar não é escolher? não é optar? decidir de livre vontade?

E não é o 'disciplinar' da consciência, do querer, um atentado à própria liberdade? Uma censura - e descarada ? Quem encontrar nisto algum sinal de que estamos em democracia que me explique, sff..


O largo número de deputados, a própria existência de uma Assembleia, não era suposto garantir a pluralidade de ideias e opiniões?
Existindo a disciplina de voto (e apenas para as questões cruciais!), bem poderia haver um único deputado por partido, tendo os seus votos peso proporcional ao da votação do respectivo partido nas legislativas. Eram só vantagens:
  • podiam reunir na casa de um deles- ou decidiam por mail, ou por SMS:
  • libertavam o espaço para outra coisa: um museu, um local de acolhimento para os sem-abrigo, qualquer coisa útil.
  • poupavam-nos, a todos, ilusões e muito, muito dinheiro!

sem mais.. :
- em cima, o quadro, 'Cadavre Exquis', de Cruzeiro Seixas
- o poema, em baixo, de um heterónimo de FP, Álvaro de Campos


Cansaço

O que há em mim é sobretudo cansaço —
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser…

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto…
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimno, íssimo, íssimo,
Cansaço…

Álvaro de Campos

al

22 de janeiro de 2009

outras músicas: Léo Ferré

« o louco inspirado, o poeta profético, aquele que sempre, e cada vez mais, pertencerá ao futuro, atravessou os céus da Europa no século passado como um cometa incendiário ... »
Era anarquista e chamava-se Léo Ferré . (cliquem no nome, vão dar a um site incrível!).

- e não percam, no vídeo, uma interpretação espantosa, misto de teatro e música, assim como um panfleto - cúmplice, libertário, provocatório:

LA SOLITUDE



a letra, aqui / um cheirinho: «o desespero é uma forma superior de crítica»

e ainda .. vejam q vale a pena: uma página na ESAG dedicada a mais umas quantas figuras maiores da cultura francesa : aqui

al

indie rock: Arcade Fire

Pois é.. já há muuuuito tempo que não vos dávamos música, verdad? Então aqui vai .. um vídeo de uma banda canadiana de indie rock (clicar se ñ souberem o q é..) que já foi visto por mais de um milhão de pessoas. A acompanhá-los, um músico britânico que não precisa de apresentações:

The Arcade Fire & David Bowie, live:

WAKE UP



aqui, as letras dos Arcade Fire

e mais : um óptimo vídeo promocional: Rebellion (Lies): aqui

já disse antes, não é? no Cemitério de Pianos, o J. L. Peixoto tb usa 2 pontos várias vezes na mesma frase!:-))

al

21 de janeiro de 2009

escritores na escola: Ana Mª Magalhães

Esteve hoje na Biblioteca da Esag a escritora Ana Maria Magalhães, co-autora, com Isabel Alçada, de várias colecções de livros infanto-juvenis que vêm, de há anos, entretendo e ensinando gerações de jovens leitores. Uma das mais conhecidas é a série "Uma Aventura", cujo sítio pode ser consultado aqui.

Foi, no entanto, no âmbito da colecção "Quero ser", que a escritora aqui foi hoje homenageada por um grupo de alunos da turma de teatro do 7.º ano.
Ei-los, na imagem à direita, entrando em cena com a sua professora e encenadora, Ana Gouveia. Os jovens alunos representaram uma cena do livro "Quero ser actor" e.. tiveram sucesso e muitas palmas, pois claro!


Depois da representação, foi a vez de Ana Maria Magalhães responder às várias questões de uma plateia interessada, que, nas palavras de despedida da escritora, mereceu elogios rasgados pela lição de cidadania, pela imagem do 'lado positivo da escola' que soube transmitir. Todos muito jovens, compenetrados, atentos. Todos alunos de várias turmas do 7.º ano, que nas aulas de Língua Portuguesa prepararam, com empenho e entusiasmo, a vinda da sua escritora, a nível de intervenções, pesquisa de dados, preparação de guiões de entrevista, logística de recepção, etc, etc

A autora correspondeu às expectativas e ao empenho de alunos e professores: a todos soube prender com relatos das 'suas' aventuras, com bom-humor e uns insuspeitados dotes representativos: "Acham que a vida de actor de televisão é interessante? -Hmm, nem sempre..." - e foi um gosto vê-la representar uma cena: uma vez, duas vezes, 'n' vezes, e.. "Corta! Entrou luz na imagem, vamos repetir. ".. e .. "Corta! Passou uma mota!" Risos, e o prazer de ouvi-la falar, de ouvi-la contar..

E contou, por exemplo, da sua experiência inesquecível no Brasil - com gibóias e casas nas árvores e banhos de rio, os medos vencidos, todos, até o das piranhas!


E foi interessante saber do carácter autobiográfico daquele naufrágio-quase; e ouvir contar das lágrimas que caíram, a espaços, sobre as folhas que escreviam, as duas autoras, quando outro remédio não houve que o de matar o personagem a que tanto se tinham afeiçoado..

Ocasião rara, essa, que o mais das vezes divertem-se as duas muito, Ana M.ª Magalhães e Isabel Alçada, com as histórias que escrevem, num trabalho de parceria e criação a que tencionam dar continuidade, esperamos nós que com o mesmo prazer de sempre, e por muitos anos.

No fim, as flores, os agradecimentos, os livros autografados.

Obrigada à escritora, pela sua vinda. Obrigada aos alunos: os que a entrevistaram, os que representaram, os que tão bem a souberam ouvir. Obrigada, também, aos professores que propiciaram este acontecimento, a todos quantos partilharam este tempo.

al

20 de janeiro de 2009

Barack Obama: tomada de posse

Enfrentando temperaturas gélidas, uma multidão exuberante de mais de um milhão de pessoas reuniu-se em Washington para festejar a tomada de posse de Obama. Encheram o National Mall, do Capitólio ao Lincoln Memorial. Aí, precisamente, onde, 46 anos antes (em 1963), outro grande afro-americano, Martin Luther King Jr., tinha inflamado também milhões, com o seu inspirador discurso "I Have a Dream". (clicar para ouvir, 'live')

Num país que tem presentemente 11 milhões de desempregados, que perdeu triliões de dólares em desastrosas operações da bolsa, Obama enfatizou, no seu discurso, o facto de o seu maior desafio consistir em reabilitar a devastada economia dos Estados Unidos: «O tempo de ficarmos indiferentes, de protegermos os interesses de uns quantos, e de protelarmos decisões difíceis - esse tempo, acabou!», disse Obama, no que foi uma clara 'alfinetada' ao seu antecessor e às políticas da administração Bush.
«A partir de hoje, vamos erguer-nos, sacudir o pó, começar a tarefa de reconstruir a América. E, àqueles que se agarram ao poder através da corrupção e da mentira, ou pelo silenciamento dos seus opositores, dizemos que estão do lado errado da história (...) »
Barack Obama, de 47 anos, é o 1.º presidente afro-americano eleito nos EU, assim quebrando uma barreira que gerações e gerações de etnias minoritárias tinham considerado intransponível:
«É este o momento de lembrar que todos somos iguais, todos somos livres e todos merecemos uma oportunidade para conquistarmos o nosso quinhão inteiro de felicidade.»

fonte: Yahoo

- seguir hiperligação deste post (no título) ou clicar aqui para ouvir o final do discurso de tomada de posse - eu .. fiquei arrepiada ..

al

19 de janeiro de 2009

surpresa

o escritor valter hugo mãe visitou hoje este blogue, deixou um comentário.
foi .. mais uma coisa boa (muito boa), num dia de luta e de luto. *
obrigada!

pelo muito que o aprecio, escrevi à maneira dele, sem maiúsculas :-))
al

*uma notícia triste: morreu o músico João Aguardela

clar-evidências: Bertolt Brecht

Mandou-me isto uma amiga, na sequência do post anterior. Achei .. muito apropriado:

De que serve a bondade
1
De que serve a bondade
Quando os bondosos são logo abatidos, ou são abatidos
Aqueles para quem foram bondosos?
De que serve a liberdade
Quando os livres têm que viver entre os não – livres?
De que serve a razão
Quando só a sem-razão arranja a comida de que cada um precisa?
2
Em vez de serdes só bondosos, esforçai-vos
Por criar uma situação que torne possível a bondade, e melhor;
A faça supérflua!
Em vez de serdes só livres, esforçai-vos
Por criar uma situação que a todos liberte
E também o amor da liberdade
Faça supérfluo!
Em vez de serdes só razoáveis, esforçai-vos
Por criar uma situação que faça da sem-razão dos indivíduos
Um mau negócio!
Bertolt Brecht, in 'Lendas, Parábolas, Crónicas, Sátiras e outros Poemas' ; Tradução de Paulo Quintela

Fiz depois uma pesquisa rápida e fui parar ao sítio As Tormentas [cliquem e façam o favor de ler: tudo, absoluta, inquestionavelmente, tudo!]. Eu, fiquei deslumbrada (ultimamente acontece-me muito, por que será?!:-)) desta vez com a actualidade, a clarividência dos poemas todos que o Luís Rodrigues lá pôs do Bertolt Brecht, genial dramaturgo alemão de que avidamente li (em alemão!!) acho que tudo, em tempos de faculdade.. Que é imperdoável não conhecerem.

E não resisti, transcrevo o que abaixo lerão, e que me traz à memória 'uma frase ultimamente muito batida' : "é a lei, que se há-de fazer? ......"
«Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo. E examinai, sobretudo, o que parece habitual. Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural, nada deve parecer impossível de mudar - Bertolt Brecht

a esta citação resisti ainda menos.. ora vejam:
«O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguer, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo.»
- poema "O Analfabeto Político" ,
B. Brecht


al

os escritores, a (des)informação, a educação

Vem isto no seguimento de uma entrevista que a escritora Alice Vieira deu ao jornal Público, a propósito do 'estado da educação' (mais ou menos isso..) : aqui, se quiserem ler

Confesso que fiquei um tanto irritada com o artigo – melhor dizendo, com algumas das opiniões da Alice Vieira. Conheço os seus livros – obviamente – porque o meu filho, a minha sobrinha, os liam. De uns gostavam, de outros nem tanto. É assim .. como em tudo, como em relação aos professores.
O que não compreendo, o que não poderei nunca aceitar, é que, também esta escritora, fale tão assertivamente do que não sabe. E o mais lamentável é que não é a única (escritora, entenda-se) a arrogar-se esse opinar desinformado.
Passo a explicar, pegando-lhe numa frase que enferma de várias incorrecções: «… quando 140 mil professores vêm para a rua, é óbvio que devem ter razão, mas não têm toda. A ideia que tenho, desde o princípio é de que a ministra tem razão em querer que os professores sejam avaliados, mas ela não sabe transmitir o que quer. »

  1. 140 mil é o número total (aproximado) de professores. Os que vieram para a rua terão sido entre 120 e 130 mil .
  2. Se é assim tão óbvio que "devem ter razão", talvez seja igualmente óbvio que a tenham toda. Deveria Alice Vieira, pelo menos, pôr-se essa hipótese ..
  3. Alice Vieira tem uma ideia formada: a de que "a ministra tem razão em querer que os professores sejam avaliados". Pois é … as percepções não bastam. Deveria, antes de opinar, saber esta escritora que, antes desta ministra, os professores JÁ ERAM AVALIADOS! Foram-no, durante anos, através de um processo definido pelo Ministério da Educação! Que os próprios agentes da governação venham agora repudiar os seus anteriores modelos, não é, obviamente, culpa dos professores. Talvez o desencanto, o cansaço, lhes venham daí, e não (por favor!!!!..) por "terem os seus direitos adquiridos e ser mais difícil aceitar outras coisas."
Deveria a escritora Alice Vieira saber que, de cada vez que aqui se muda de governo, muda também – parece que inevitavelmente – o sistema educativo: total ou parcialmente. Se há quem, desde o 25 de Abril de 1974, tenha tido a capacidade de mudar, de aceitar 'outras coisas' , têm sido, precisamente, os professores!

al

18 de janeiro de 2009

há sempre alguém

É do Tiago, o comentário. Dele já conhecem a dedicação, a sensibilidade, a inteligência, a lucidez acutilante, a verticalidade. Sabem da fogosidade interventiva da sua juventude, da generosidade sem limites. Trago-vo-lo aqui novamente, em vésperas de mais um dia crucial na vida dos professores portugueses. Porque 'há sempre alguém que nos merece'.

«Falou-se (…) do que é ser aluno e que mudou muito, com a alteração, nomeadamente, da carga horária semanal. Estou agora no 12º ano, passei sempre, mais ou menos "tremido" (quase sempre para o menos "tremido"...), apenas com uma negativa o ano passado, no final do 1º período, a matemática A. Mas confirmo a existência de uma mudança profunda quer no lado docente quer no lado aprendiz.

Lembro-me de, desde o 5º até cerca do 8º ano, ter aulas no período da manhã, com uma aulita (quando a tinha) de 45 minutos na parte da tarde. Geralmente de Educação Física e, muitas vezes, à 6ª feira, para "descomprimir" a semana. Agora tenho um horário bastante acessível, com tempo livre que é muito bem servido por nós (alunos), quer seja para irmos à nossa vida, quer seja para estudarmos.
Mas olho com alguma tristeza para o horário de uma prima minha que entrou este ano para o 7º ano e que vive a um ou dois quilómetros de casa, perto de uma zona problemática. Tem de entrar na escola às 8 e meia da manhã e sair, muitos dias, às 6 e meia da tarde. Isto sem possibilidades de meios de transporte, vai sempre a pé. O mesmo se passa com o meu primo que entrou para o 5º ano, morador dessa mesma zona problemática.
Há uma frase, um ensinamento de vida, de que gosto muito: "O idiota é o que se cala perante o que não sabe. O verdadeiro estúpido é o que fala do que não sabe". Agora, este governo, estas políticas educativas, são as verdadeiras estupidezes, a verdadeira palavra transformada em lei de quem fala do que desconhece: a realidade das escolas. Por que incham de orgulho quando se lhes diz que a média nacional de matemática subiu 4 valores? Os portugueses baixariam 4 valores perante exames de outros países. Não é culpa dos professores. Eles fazem o que podem, muitas vezes muito mais! A culpa é de um programa sem margem de manobra que não deixa compensar falhas e enganos que tenham surgido em anos anteriores. A solução para um programa mal "programado"? Exames fáceis "para ver se safa a coisa". O verdadeiro estúpido é o governo, que emite decretos e estatutos sem conhecer a realidade. O idiota é o eleitorado que o elegeu, mas não teve culpa: antes da tempestade (leia-se eleições) vem sempre a calmaria.

A realidade dos alunos de hoje é muito diferente. Olho para os alunos de 3º ciclo de hoje, com as suas mochilas a rebentar pelas costuras (literalmente, não no sentido figurado), com uma má vontade (haja alguns que ainda quebram a média! De louvar!) de ir às aulas, com muito mais tempo de aulas que aquilo que eu tinha (35 horas, bolas!) e a única coisa que me vem à cabeça é uma palavra feia que não vejo conveniente colocar aqui.
Depois olho para os professores: cansados depois de uma noite mal dormida, sem rendimento por causa de uma gripe que não puderam tratar porque não tiveram margem de manobra para ir ao médico e medicar-se convenientemente, com uma má-vontade de aturar um bando de cerca de 30 alunos, ouvi-los a todos, responder às suas dúvidas, dar a matéria de um programa extensíssimo e ultra-condensado, fazer esquemas, fichas e apoios tais... E, mais uma vez, me surge a palavra feia. E vejo a diferença dos alunos de hoje e dos alunos de ontem (eu fico algures no meio, que apanhei ainda as duas alturas). E vejo a diferença entre os professores de hoje e os professores de ontem. E penso que para ter havido tanta mudança ao nível destes dois conjuntos a culpa não é dos conjuntos. É de alguém acima, alguém que "manda". O verdadeiro estúpido.
E quando olho para o conjunto, de alunos de hoje, com professores de hoje, vem-me outra vez a palavra feia à cabeça e desta vez não se fica por aí, digo-a baixinho, murmuro-a. E a seguir, "enfim"... »

postado por al
quadro de Franz Marc

na Finlândia

sistema de Ensino da Finlândia: descubra as diferenças: (*)


Na Finlândia, as turmas têm 12 alunos

Na Finlândia, há auxiliares de acção educativa acompanhando constantemente os professores e educandos

Na Finlândia, os pais são estimulados a educar as crianças no intuito de respeitarem a Escola e os Professores

Na Finlândia, os professores têm tempo para preparar aulas e são profissionais altamente respeitados

Na Finlândia, as aulas terminam às 3 da tarde e os alunos vão para casa brincar, estudar, usufruir do seu tempo livre

Na Finlândia, o ensino é totalmente gratuito, inclusivamente os livros, cadernos e outro material escolar

Na Finlândia, todas as turmas que têm alunos com necessidades educativas especiais, têm na sala de aula um professor especializado a acompanhar o aluno que necessita de apoio

Na Finlândia, não se mexe no sistema educativo há 30 anos!

Na Finlândia, não há professores avaliadores, professores avaliados nem inspectores

Na Finlândia , não há professores de primeira e de segunda

Pois é ... 1.º lugar do PISA ... há anos


postado por al

(*) o José Luís Peixoto tb usa : 2 vezes na mesma frase: ando a ler o Cemitério de Pianos

imagem: Artek, um mercado de design

mensagem

Porque somos uma biblioteca de uma escola ..
Porque somos professores e gostamos de transparência ..
Porque achamos que a informação é um direito, e um dever ..

pensamos ser de toda a licitude deixar aqui um documento que nos chegou de várias organizações de professores e que outra intenção não tem para além da de informar e esclarecer.


Aqui fica, então:


"mensagem aos portugueses"

«Os professores vêem-se na necessidade de proceder a formas de luta, depois de terem tentado de todas as maneiras que a suas opiniões fossem tomadas em consideração na elaboração de várias leis que estão a contribuir para que a confusão e o mal-estar se instalem nas nossas escolas: fizeram abaixo-assinados, vigílias e dezenas de manifestações – duas das quais com mais de 100 mil professores –, sendo estas formas de luta desenvolvidas ao fim do dia ou aos sábados para não prejudicar os alunos.


O que querem os professores?
  • Querem que as escolas continuem a ser geridas democraticamente. Não querem voltar a ter um reitor à moda antiga; Só dando exemplo diário de democracia é possível formar consequentemente para a democracia.
  • Querem ser avaliados por processos justos e que contribuam para o seu aperfeiçoamento profissional.
  • Querem ter uma carreira única, digna, em que o mérito seja sempre premiado e não uma carreira dividida artificialmente, onde o mérito só é premiado em alguns casos.
  • Querem ser tratados com respeito e que as suas opiniões sejam tidas em consideração na elaboração de diversas leis que o governo – em desprezo pelos que estão há anos no terreno – procura impor, ignorando todos.
  • Querem leis que valorizem a sua função e os ajudem a combater a indisciplina e a violência que tem vindo a crescer nas escolas e não a sua constante desautorização e desvalorização por parte do ME.
  • Desejam uma escola que ministre um ensino de qualidade, onde os alunos passem de ano a dominar as matérias e não uma escola que não prepara para a vida e que permite a passagem indiferenciadamente, para ficar bem vista nas estatísticas europeias.
  • Não estão a reivindicar aumentos salariais – apesar de a crise ser profunda e o seu grupo profissional, desde há oito anos, ter vindo a ver decrescer o seu salário real. Embora, pelas razões expostas, os professores se vejam obrigados a lutar, irão empenhar-se para garantir a leccionação das matérias previstas.
  • Os professores desejam salientar que não esquecerão os seus alunos e reiteram que esta luta é de todos – pais, alunos e professores – por uma escola pública de qualidade. »

APEDE (Associação de Professores e Educadores em Defesa do Ensino) ; CDEP (Comissão em Defesa da Escola Pública) ; MEP (Movimento Escola Pública) ; MUP (Movimento de Mobilização e Unidade dos Professores) ; PROmova (Movimento de Valorização dos Professores

postado por al

ser Professor .. em Espanha

da Junta da Extremadura: valoración docente

transcrição: "la educación lo es todo!" = a educação é tudo!

e a Espanha aqui tão perto! ..

al

17 de janeiro de 2009

desanuviar

gosto, gosto, como gosto (..!..) de nuvens . .

fevereiro 2008

Janeiro 2009 -1

Janeiro 2009 -2

al

quantos seremos?

QUANTOS SEREMOS?

Não sei quantos seremos, mas que importa?!
Um só que fosse, e já valia a pena
Aqui, no mundo, alguém que se condena
A não ser conivente
Na farsa do presente
Posta em cena!

Não podemos mudar a hora da chegada,
Nem talvez a mais certa,
A da partida.
Mas podemos fazer a descoberta
Do que presta
E não presta
Nesta vida.

E o que não presta é isto, esta mentira
Quotidiana.
Esta comédia desumana
E triste,
Que cobre de soturna maldição
A própria indignação
Que lhe resiste.

Miguel Torga, Câmara Ardente

al
quadro: Alfred Gockel

ser PROFESSOR

Aspectos que toda a gente parece ignorar sobre a profissão de Professor e que será bom esclarecer:

1º. Esta é uma profissão em que a imensa maioria dos seus agentes trabalha (em casa e de graça, entenda-se) aos sábados, domingos, feriados, madrugada adentro e muitas vezes, até nas férias! Férias, sim, e sem eufemismos, que bem precisamos de pausas ao longo do ano para irmos repondo forças e coragens. De resto, é o que acontece nos outros países por essa Europa fora, às vezes com muito mais dias de folga do que nós: 2 semanas para as vindimas em Setembro/ Outubro, mais duas para a neve em Novembro, 3 no Natal e mais 3 na Páscoa, 1 ou 2 meses no verão..

2º. É a única profissão em que se tem falta por chegar cinco minutos atrasado (5 minutos que equivalem a um tempo, de 45 ou 90 minutos!)

3º. É uma profissão que exclui devaneios do tipo “hoje preciso de sair meia hora mais cedo”, ou o corriqueiro “volto já” justificando a porta fechada em horas de expediente.

4º. É uma profissão que não admite faltas de vontade e motivação ou quaisquer das 'ronhas' que grassarão, por exemplo, no ME (quem duvida?) ou na transparente AR.

5º. É uma profissão de enorme desgaste. Ainda há bem pouco tempo foi divulgado um estudo que nos colocava na 2ª posição, a seguir aos mineiros, mas isto, está bom de ver, não convém a ninguém lembrar…

6º. É uma profissão que há muito deixou de ser acarinhada ou considerada, humana e socialmente. Pelo contrário, todos os dias somos agredidos – na nossa dignidade ou fisicamente (e as cordas vocais não são um apêndice despiciendo…) , enxovalhados na praça pública, atacados e desvalorizados, na nossa pessoa e no nosso trabalho, em todas as frentes, nomeadamente pelo 'patrão' que, passe a metáfora económica tão ao gosto dos tempos que correm…, ao espezinhar sistematicamente os seus 'empregados' perante o 'cliente', mais não faz do que inviabilizar a 'venda do produto'!

7º. É uma profissão em que se tem de estar permanentemente a 100%, que não se compadece com noites mal dormidas, indisposições várias (físicas e psíquicas) ou problemas pessoais …

8º. É uma profissão em que, de 45 em 45, ou de 90 em 90 minutos, se tem de repetir o processo, exigente e desgastante, quer de chegar a horas, quer de "conquistar" , várias vezes ao longo de um mesmo dia de trabalho, um novo grupo de 20 a 30 alunos (e todos ao mesmo tempo, não se confunda uma aula com uma consulta individual ou a gestão familiar de 1, 2, ‘n’ filhos...)

9º. É uma profissão em que é preciso ter sempre a energia suficiente (às vezes sobre-humana) para, em cada turma, manter a disciplina e o interesse, gerir conflitos, cumprir programas, zelar para que haja material de trabalho, atenção, concentração, motivação e produção. Batemos aos pontos as competências exigidas a qualquer dos nossos milionários bancários, dos inefáveis empresários, dos intocáveis ministros! Ao contrário deles (da discrepância salarial e demais benesses não preciso nem falar) e como se não bastasse tudo o que nos é exigido …

10º. ainda somos avaliados, não pelo nosso próprio desempenho, mas pelos sucessos e insucessos, os apetites e os caprichos dos nossos alunos e respectivas famílias, mais a conjuntura política, económica e social do nosso país!

Assim, é bom que a 'cara opinião pública' comece a perceber por que é que os professores "faltam tanto" – leia-se ‘faltavam’ (*):


Para além do facto de, nas suas "imensas" faltas, serem contabilizadas também situações em que, de facto, estão a trabalhar :

- no acompanhamento de alunos em visitas de estudo,
- em acções, seminários, reuniões, para as quais até podem ter sido oficialmente convocados,
- para ficarem a elaborar ou corrigir testes e afins , que não é suficiente o tempo atribuído a essas tarefas ,
- ou, como vem sucedendo ultimamente, a fazerem em casa, que é o sítio que lhes oferece condições, horas e horas não contabilizadas do obrigatório “trabalho de escola”….

Para além disto, e não é pouco, há pelo menos, como acima se terá visto, toda uma lista de 10 boas e justificadas razões para que o façam.


Correcção :
as nossas faltas nem sequer são faltas! São dias descontados ao período de férias!

(*) agora praticamente não faltamos: 5 dias/ano de artigo 102 contra os anteriores 12 ou os 24 dias (2 por mês) do antigo artigo 4.º, alguém se lembra? Não faltamos, o que não se traduz necessariamente em maior produtividade, muito menos em mais qualidade:

  • Agora vamos para as aulas, doentes, indispostos, mal dormidos, encharcados em calmantes (sim, em que acham que resulta o stress em que nos têm mantido nos últimos 3 anos?!).
  • Os testes que dantes ficávamos a corrigir (abdicando de dias de férias) demoram agora semanas e semanas a serem entregues aos alunos…
  • Nem temos, sequer, hipótese de ir ao médico, que nos obrigam a repor as aulas (escapamos apenas se estivermos presos, sabiam?) Mais: o nosso médico, que nos conhece há 20 anos, não pode atestar a nossa doença, se não for convencionado!! - aberrante, surrealista..

    E … também há quem, não dando uma única falta, tenha (nas aulas, em casa..) uma ‘rica vida’, acreditem!

al
quadro de Roman Morhardt

16 de janeiro de 2009

incandescências: Angola

Pesquisando no youtube sobre o escritor angolano José Eduardo Agualusa, encontrei este vídeo, que com o autor terá muito pouco a ver (...) Fiquei foi impressionada, com as imagens, com as palavras. E envergonhada, pela ignorância, pela marginalidade em que confortavelmente me mantenho (nos mantemos?), pela cegueira e pela surdez: a este, aos outros todos países de língua portuguesa, a sua História fazendo-se com gritos que ninguém..

No vídeo, pelo hip-hop, denúncias terríveis, e acredito.

Que tudo não permaneça apenas silêncio..

al

a literatura, as paixões: Valter Hugo Mãe

Como se atravessa uma ponte, de regresso ao que, para sempre e inexoravelmente, deixou de ser? Como voltar agora ao caminho tranquilo dos livros ‘normais’, depois de dias e dias passados em fascínio, do outro lado? Depois de ter permanecido padecido perecido, lá onde cada linha é um desafio, um mergulho, um salto no escuro; um ser-se - apaixonadamente; um descobrir-se, desabituado de uma linguagem que nos sacode, e que adivinhamos Lugar, e Nascimento. Construção absolutamente nas margens, e ainda assim perceptível. Revolucionarizante, e apesar disso coerente de códigos e regras.

É assim. Há Autores que nos renovam e nos agitam. Que irremediavelmente nos desassossegam. Que nos fazem, também, sentir pequenos, pequenos, pequenos. Este é Um e chama-se Valter Hugo Mãe.

Dele quis ler “o apocalipse dos trabalhadores”, que li recomendado pelo escritor João de Melo como ‘um livro excepcional’. Esgotado, em toda a parte. Do Autor encontrei então um outro romance, edição de bolso com letra de tamanho minúsculo, mesmo assim irrecusável: “o remorso de baltazar serapião”, ganhador, em 2007, do prémio José Saramago, que o apelida de ‘tsunami’. Citando esse outro Grande Transgressor: «Este livro é um tsunami, não no sentido destrutivo, mas da força. Foi a primeira imagem que me veio à cabeça quando o li. […] Tem de ser lido, porque traz muito de novo e fertilizará a literatura

Não vou desvendar enredos, nem deter-me em análises pessoais. Não vou, sequer, referir Cortázar, ou a literatura africana de expressão portuguesa, como influências que, a espaços, me parece descortinar. Deixo-vos com dois excertos, para que possam ajuizar sozinhos, para que (confio ..) em deslumbramento vos cresçam apetites inadiáveis:


« […] nós éramos os sargas, o aldegundes sarga, dos sargas, diziam. ele é sarga, é dos sargas cara chapada. nada éramos os serapião, nome da família, e já nos desimportávamos com isso. dizia o meu pai, o povo simplifica tudo e a nós vêem-nos com a vaca e lembram-se dela, que é mais fácil para se lembrarem de nós e nos identificarem. a vaca era a nossa grande história, pensava eu, como haveria de nos apelidar a todos e servir de tema de conversa quando perguntavam pela mãe, pelo pai, perguntavam pela vaca, magra, feia, tonta da cabeça, sempre pronta a morrer sem morrer. e riam-se assim com o nosso disparate de ter um animal tão tratado como família, e não entendiam muito bem. […]»

«[…] aproximei-me dos dois, grande e imbatível como uma pedra de ódio construída no exercício do meu bom amor, e me pus diante deles tão pequenos. afastaram-se da minha ermesinda que, imóvel, respirou menos, respirou menos, respirou menos, não respirou. a sarga mugiu de modo lancinante. e eu abati-me sobre os dois abrindo lado a lado os braços de punhos fechados. um só golpe certeiro sobre as suas cabeças. um só golpe com a violência da pedra mais furiosa do mundo. sobraram no chão como mais nada ali estivesse. […] »


Notas:
Esqueci-me de dizer: Valter Hugo Mãe não usa maiúsculas – em nada, alegadamente por achar não serem algumas palavras mais importantes que as outras. Mas isso é, apenas, um pormenor, e absolutamente despiciendo.

- tem uma página web, onde se pode ler uma autobiografia deliciosa:
aqui
- um blogue: casadeosso
- está também aqui, juntamente com outros dois prémios J. Saramago

al